Lembranças da minha infância em São Paulo

Acho que a primeira lembrança que eu consigo resgatar é a de macaquinho, do sagüi que pertencia à senhoria da casa onde morávamos na rua Benjamim de Oliveira, no Brás.

Depois, já maiorzinha, me lembro que meu pai cantava para minha irmã – ainda viva – e para mim, uma cantiga espanhola:

Se quieres que te cante
La seguidilla
Llena-me la guitarra
de pelaillas
(Seguidilla- dança característica da região de Sevilha.
Pelaillas- amêndoas envoltas em casca de açúcar)

E cantava também uma canção de ninar, com certeza aprendida com sua mãe e também em espanhol. Lembro até da letra.

" A dormir se vá mi nêne
que viene la reina moura
buscando de casa em casa
qual é el ninho que llora
pra meter-lo em la capaça"
Seria o equivalente da "a cuca vem pegar"

Sempre em São Paulo – porque nunca saí da cidade – aconteceram dessa época (1936) as primeiras corridas de carro do Brasil. Duraram pouco tempo porque logo começou a Segunda Guerra Mundial e a falta de gasolina dificultou o progresso desse esporte. Na época, em São Paulo, as corridas eram na Avenida Brasil. Por nossos padrões, nossas possibilidades financeiras precárias, nossa condição familiar de casal com duas filhas pequenas de (sete e três anos), nem se aventava a hipótese de ir assisti-las no local. Ouvia-se a transmissão pelo rádio, torcia-se muito e eu e as outras crianças "rezávamos" pelos ídolos de então, Pintacuda (italiano) e Helen Nice (francesa), Elenice, como a chamávamos, porque subconscientemente abrasileirávamos o nome. Na única corrida realizada na Avenida Brasil, o carro de Helen Nice ou Elenice, perdeu a direção e subiu numa ilha, matando alguns espectadores.
Aconteceu nessa época também a tragédia do cine Oberdan, na Avenida Rangel Pestana, também no Brás, bem perto de casa. Durante uma matinê, com o cinema lotado, alguém gritou "fogo".Todo mundo procurou sair e muitos morreram pisoteados, a maioria crianças. Minha mãe se lembra da quantidade enorme de ambulâncias que passavam por nossa rua, e eu me lembro do som das sirenes.

Entre os costumes da época, eu me lembro que:
– Banhos eram em geral aos sábados, e de bacião. Na casa da Rua Correia de Andrade – também no Brás – a água era aquecida em fogo de lenha, no quintal, em latas de vinte litros, um quintal relativamente grande, com um banheirinho minúsculo (casinha) no fundo e em um nível bem mais baixo. Só meu pai tomava banho de chuveiro frio (que temeridade e que comportamento pouco usual na época!!!).

– Dada a distância das "privadas" eram indispensáveis os penicos. O de minha mãe era de louça inglesa, verde, todo decorado, e fazia parte do jogo de bacia, jarro, penico e peças de toalete como saboneteira, recipiente para pentes, e baciazinha para preparar sabão de barba, então feita com navalha. Como os banheiros eram distantes, não havia pias para lavar mãos e rosto, o jarro ficava sempre com água, que se usava na bacia. Por isso os "toaletes" tinham um tampo de mármore. O nosso era cor de rosa.

– Era costume comprar-se roupas a prestação, que geralmente eram oferecidas por um russo -ou judeu – que batia de porta em porta.
– Era uso da época, as famílias tirarem fotos, em fotógrafos, para ofertarem aos parentes mais próximos. Meus pais fizeram isso. Minha mãe estava no começo de sua segunda gravidez e achou (sem razão) que estava aparecendo a barriga (imagine!! Que vergonha!!) e não deu nenhuma foto para ninguém. Tenho um punhado delas, onde estou com três anos, acompanhada de meu pai e minha mãe. Veja a foto da época.
– Íamos todo fim de semana ao cinema que ficava a uns dois quarteirões, o cine D. Pedro I, na rua Silva Bueno.
– Era costume nosso – de nossa família – ir aos domingos ao cemitério, tomando dois bondes: do Ipiranga até a Praça da Sé, (trajeto que depois eu fiz durante sete anos), a pé toda a rua Direita e Viaduto do Chá, e na praça Ramos de Azevedo outro bonde que subia a rua da Consolação, passava pela hoje Dr. Arnaldo, e descia a Teodoro Sampaio até a rua Cônego Eugênio Leite, onde ficava o cemitério São Paulo. Sempre comprávamos flores miudinhas, brancas, de cabo curto para minha irmã que depois soube chamarem-se "idrem" e "saudades", flores roxinha, pequenas, agrupadas na ponta de um ramo uma flor para adulto, para meu avô. Nunca mais as vi. Lembro bem de tudo isso porque eu já tinha nove anos (1939). Minha irmã morreu com cinco anos.

E aos meus 10 anos, em 1940, terminou minha infância quando passei para o ginásio.