Escolas de minha infância

Com cinco anos eu já sabia ler um pouquinho, porque meu pai me ensinava com os jornais da época. Não era o usual em 1935, no meu contexto socioeconômico. Em frente de casa, na Correia de Andrade, no Brás, existia uma escolinha, a Escola Sete de Setembro da Dna. Etelvina, que tinha sido professora de meu pai. Ela me ensinou as primeiras letras de maneira mais metódica. Não havia jardim da infância e muito menos pré-primário naquela época. Eram professoras particulares que ensinavam os que ainda não tinham idade para o Grupo Escolar, sete anos.

Quando fiz sete anos, entrei para o Grupo Escolar Romão Puigari, na Avenida Rangel Pestana, onde fiz o primeiro e parte do segundo ano primário. Durante a minha permanência nesse Grupo (1937 e parte de 1938) foi feita uma passagem para a travessia de pedestres, em frente ao mesmo. A construção foi complicada, atrapalhava muito a circulação dos alunos e era um barro só (terra argilosa). Atravessávamos a rua longe da escola e como as calçadas estavam tomadas pela terra, era preciso andar se apoiando nas grades do jardim. No ano de 1997 voltei ao local desse Grupo Escolar. Ele continua lá, está sendo reformado porque o prédio é muito bonito. Com a construção do metrô, tudo mudou ao redor e a passagem subterrânea não existe mais.
Por essa ocasião meu pai lia muito para mim, uma das poucas, senão a única poesia que ele conhecia e que me marcou muito. Trata-se de Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu. Lembro-me também, que uma das primeiras histórias que eu li foi uma história folclórica holandesa, de um menininho que salvou a cidade colocando seu dedo num buraquinho de um dique que vazava, até que outras pessoas viessem concertá-lo. Acho que as pessoas do meu tempo, todas leram essa história.
Quando mudei para o Ipiranga, cursei o terceiro e quarto anos primários, no Primeiro Grupo Escolar do Sacomã, hoje Visconde de Itauna. Funcionava em um sobradão adaptado, com uma construção anexa no quintal onde funcionava uma das salas de aula. A professora falava tão alto que eu, de minha casa que ficava em outra rua, mas com os fundos próximos, a ouvia em suas ladainhas alfabatizadoras. Através desse Grupo Escolar, mesmo depois de ter saído, participei do primeiro alistamento eleitoral e da primeira eleição em 1945 depois de 15 anos do governo de Getúlio Vargas, de regime ditatorial.

Aos 10 anos tirei o diploma do curso primário. No terceiro e quarto anos do curso primário (1939 – 1940) minha professora foi a mesma: Maria José Gallet. Lembro-me que eu, assistindo a um filme de Dorothy Lamour, acho que "Princesa da Selva", o resumi e fiz um minúsculo livrinho, que entreguei à professora como um grande feito meu. Ela me incentivou muito e acho que ficou latente em mim, durante muitos anos esse desejo de escrever, que agora aflora, 50 anos depois.
E aí terminou a minha infância da qual guardo lembranças especiais