A Parada Inglesa marcou minha vida, pois vivemos no bairro por vários anos. A convivência diária num determinado local nos leva a integrarmos com os diversos ambientes que nos cercam.<br><br>De família muito católica, aos domingos de manhã, nós assistíamos às missas na Igreja Nossa Senhora dos Prazeres (Igreja do Padre Júlio), na Avenida Ataliba Leonel, e, algum tempo após a minha Primeira Comunhão, juntei um grupo de amigas da Escola Cônego Luiz Biasi e nos integramos à comunidade de jovens da igreja.<br><br>Padre Júlio sempre apoiou a inclusão dos jovens nas atividades da paróquia e era comum participar das nossas reuniões que ocorriam aos sábados à tarde e após a missa aos domingos. Havia música, orações, reflexões e muito serviço.<br><br>Com certa frequência, arrecadávamos mantimentos e fazíamos um almoço para a comunidade carente da região onde os integrantes dos diversos grupos da paróquia ajudavam: um diversificado cardápio, peças de teatro, músicas, atividades para as crianças, além de doações e cadastro para indicação de emprego, tudo era muito divertido e gratificante.<br><br>Foram domingos inesquecíveis onde conhecemos pessoas incríveis que através de longas conversas contavam sobre suas vidas, suas origens e suas dificuldades. Ali comecei a conhecer o melhor e o pior lado de São Paulo. Aos 13 anos pude perceber que o mundo não era tão cor-de-rosa e eu queria ajudar de alguma forma.<br><br>Ajudávamos em muitas atividades da paróquia e certa vez o grupo de jovens foi convidado a auxiliar na limpeza das imagens. Trabalhamos durante toda a tarde de sábado e, num determinado momento, ao lavar as imagens do piso superior que dava acesso à torre da igreja e que cuja porta naquele dia estava aberta, alguém deu a brilhante idéia de subirmos até o alto da torre. <br><br>Jovens, geralmente, são curiosos e, às vezes, inconsequentes. E sem pensar duas vezes, subimos a frágil escadaria de madeira no interior da escura torre. Pombas mortas e teias de aranha eram comuns no trajeto e a cada degrau a aventura se tornava mais emocionante até que chegamos perto do sino onde as aberturas nos proporcionavam uma linda visão de todo o bairro e região como Jardim São Paulo, Carandiru, Santana, Vila Izolina Mazzei, entre outras; sendo que, ao fundo, era possível avistarmos o centro de São Paulo.<br><br>Todos que estavam ali naquele momento ficaram inebriados com aquela paisagem que poucos poderiam ter o privilégio de ver, pois a torre da igreja era, naquela época, o local mais alto da avenida, porém, o medo de alguém descobrir que fomos até lá ou mesmo de trancarem a porta que dava acesso à torre era tão grande que descemos logo ficando somente a lembrança daquela linda paisagem e grande aventura.<br><br>Durante alguns anos, fiz parte daquele grupo que me fez crescer interiormente e, com certeza, o mesmo ocorreu com todos que participaram daquela pequena comunidade.<br><br>Tínhamos amizade com a tia do Padre Júlio que morava juntamente com ele numa casa que ficava nos fundos da igreja. Era uma senhora de cabelos bem brancos e com um constante sorriso sereno e acolhedor e que nos convidava após as reuniões a tomar um cafezinho com ela na cozinha da casa paroquial. Era uma mulher sábia, generosa e uma das mais belas que conheci.<br><br>Grupos como esses são comuns nos bairros e nas igrejas e nos mostram o lado humano da cidade ao tentar ajudar e a mudar a vida de muitos que se perderiam nos maus caminhos. Acredito que os maiores beneficiados, no final, são aqueles que se dispõe a dedicar um pouco de seu tempo em ajudar ao próximo. A integração com esses grupos é fácil e rápida, basta se aproximar.<br><br>E-mail: [email protected]