Ledo engano!

Minha memória, hoje, costuma me pregar peças. – Coisas da idade, costuma dizer meu filho. Mas isso não é de hoje. Aos vinte e poucos anos ela já me aprontava, como essa história que vou contar agora.

Morava no Largo de Santa Cecília e trabalhava lá na Rua Barata Ribeiro, travessa da Praça XIV Bis.

Ia, todos os dias, almoçar em casa. Na época tinha um fusquinha café-com-leite (acho que já o mencionei em alguma história por aqui). Comprado com o suado e rico dinheirinho, era o meu xodó.

Pois bem, um dia qualquer fui almoçar em casa e estacionei o carro no Largo Santa Cecília mesmo, como fazia todo dia. Nessa época ainda não havia o metrô, portanto sempre conseguia lugar pra estacionar.

Depois do almoço, saio do prédio e vou direto no lugar onde havia estacionado. Cadê o carro? Olho, procuro, dou volta na igreja e nada… Mas como é possível? Um frio na espinha surgiu inesperado e comecei a suar gelado…. E agora? Que faço? Chamo a polícia? Já estava ficando atrasada e não sabia o que fazer.

Bom, teria que ligar primeiramente no serviço e avisar que chegaria atrasada, pois teria de tomar alguma providência em relação ao carro. Falei com meu chefe e imediatamente ele disse pra ficar tranqüila que mandaria um motorista da firma pra me ajudar no que fosse preciso. Fiquei aguardando o motorista, aflita, pois sem meu carrinho eu me sentia órfã….

O motorista, muito calmo, chegou e a primeira coisa que perguntou foi:
– Onde você costuma estacionar o carro? Respondi que era sempre no mesmo lugar, no Largo.

Então ele sugeriu que, antes de irmos à delegacia fazer o BO, déssemos uma andada pela vizinhança. Subimos o largo até a Rua Frederico Abranches e demos uma olhada geral. Qual não foi minha surpresa, quando vejo, do lado esquerdo da rua, o meu fusquinha café-com-leite….

Morta de vergonha, pedi desculpas ao motorista e disse categoricamente:

– Eu juro como estacionei no Largo! Não sei como isso foi acontecer…

Graças a Deus foi a memória que me enganou.