Leão solto no parque

Sábado à tarde, quinze horas, chego ao Parque Villa Lobos. O portão do estacionamento está fechado. Lá dentro dois ou três carros somente. Desço do carro, e notando que o portão estava apenas encostado, abro e entro com o meu carro.

A administração tinha emprestado o bem público para uma produtora de filmes comerciais, para filmar o anúncio de uma firma francesa, aquela que tem o logotipo da Cultura, um leão.
Ou será que a Cultura que tem o logotipo deles?
Sei lá!

Tava o pessoal, equipamento, luzes, artistas, um diretor, um Mustang 68, conversível, e uma perua Kombi com um enorme leão amarelo-pardo ou talvez um pardo leão amarelo. Enfim, um bruta leão. Era grande o animal. Estava com o amestrador.
A idéia era filmar alguém dirigindo o carro conversível com o leão sentado ao lado dele. Só seria possível com o carro conversível, é lógico, não?

Não estava muito aí para tudo isso. Vi as primeiras tomadas com o bichão sentado e andando, e fui cuidar da vida. Tinha parado o carro no fundo do estacionamento e estava experimentando as minhas pipas.
Tinha pouca gente no parque, pois com as portas encostadas, acho que o pessoal quando chegava desistia e ia embora. Perto de onde eu estava via alguns guardas do parque, daqueles que ainda não tinham uniforme, no beirado do talude, vendo lá embaixo no estacionamento, o transcorrer das gravações.

Um dos guardas, mais curioso, desce e vai olhar o felino de perto. Eu estou próximo quando escuto alguns gritos. Corro para a beira e o que eu vejo não sabia se eu ria, chorava ou corria…
O guardinha está deitado de costas no piso do estacionamento com os braços abertos, ele nem toca no leão, que está de pé sobre o cara, e com a boca totalmente aberta em cima da cabeça do infeliz.
O cara não se mexe milímetro, está estático, aterrorizado — se eu estava, imagina o coitado!

O amestrador vem correndo e gritando não lembro o que e rapidinho leva aquele monstro para dentro da Kombi, reclamando:

– Eu falei que era muito tempo de gravação. Já é hora dele comer!!!

Alívio geral, pois eu não preciso mais correr. Ajudam o cara a se levantar; acho que ele nem sentia mais as pernas.
Ele sobe as escadas do talude com a camisa rasgada e calças molhadas, quase sem conseguir falar. Quando ele consegue:

– Num vim trabalhar aqui para ser comido por leão! Você viu, ele correu atrás de mim, me jogou no chão, e quase engole a minha cabeça inteirinha.

Já vi gente branca, mas o rapaz estava um fantasma; nem respirar respirava. E completou:

– Quando ele abriu aquela “bocona”, meu coração até parou. Senti o bafo da morte me atingir

Indo embora, já no carro, aliviado por não ter acontecido nada, ria muito e pensava:
– Está na cara que sentiu bafo, bafo de leão.

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