Lauzane: Um Amor e Uma História

Alguns anos atrás o tempo não me parecia tão lento como agora. Naquela época, vou dar-me o prazer de recordar, sucedeu-me uma aventura que, às vezes, me pareceu um sonho. Como nunca mais tornei a pensar nela, muitos detalhes dessa história se desvaneceram. Se bem me lembro, porém, naquela época tudo me parecia ter um brilho especial.

Em certa rua tranquila, do bairro de Lauzane Paulista, conheci uma pessoa que durante muito tempo havia de encher todos os meus pensamentos. Agora, porém, raramente penso nela e a maior parte do tempo sua imagem desaparece completamente da minha memória, enquanto outros detalhes sutis que então eu supunha não perceber mais reaparecem novamente. Conheci essa pessoa por circunstâncias fortuitas, mercê da qual ela adquiriu para mim um singular atrativo que de outro modo não teria jamais assumido.

Retrocedendo no tempo, tinha diante de mim uma mocinha, uma menina quase. Olhando-a bem me convenci de que, apesar da sua estatura esguia não ia além dos dezoito anos de idade. Tinha as feições vivazes, os olhos cheios de claridade e sua mão morena ostentavam no dedo médio um anelzinho de pedras muito brilhante. Ouvindo-a falar não pude deixar de sorrir da idéia de que ela já me conhecia, talvez de antemão pelo menos o meu nome, pois na ocasião eu era frequentador assíduo de uma casa de shows nos Altos de Santana.

Certa ocasião, encontrei-a em uma festa na casa de uma amiga na Rua Ramal dos Menezes, em Lauzane Paulista, e fez-me amáveis perguntas acerca dos meus prazeres intelectuais e, apesar de eu não possuir nenhuma aptidão artística, pôs a minha disposição uma caixa de tinta a óleo para que eu pudesse riscar e pintar um quadro de aquarela, acrescentando que, acaso eu deseja-se utilizá-lo por mais tempo, independente de nova oferta, eu poderia ficar com ele. Aquele encontro fortuito com a moça, no entanto, não deixara em mim o menor vestígio de interesse por ela. Certa ocasião, porém, ao palmilhar pela Estrada do Guacá vi que duas moças caminhavam a minha frente e apressei o passo para averiguar quem era; antes de alcançá-las, notei por seu andar flexível reconheci entre as duas, a jovem Marina.

Naquele momento o meu espírito engolfa-se inteiramente na presença da moça. Alguma coisa como o contato vivo com ela fez aguçar os meus sentidos adormecidos. Bastou à iniciativa de tornar a encontrá-la e em circunstâncias favoráveis trouxe-me o alento de conquistá-la. Seria puerilidade minha aquele doce encontro? Talvez! – Tive tanta vontade de vê-la novamente – disse-lhe sorrindo. E tomando uma de suas mãos nas minhas continuei – Não pode supor quanto me agrada a tua presença aqui e que me faz muito feliz. – Caminhando pela rua ia pensando na esperança de encontrá-la e vim até aqui por sua causa. – disse-lhe. Por um momento me pareceu que ela ia se afastar de mim, porém, com brusca decisão despediu-se da outra jovem, deu-me o braço e conduziu-me até um banco de uma Praça onde nos sentamos muito juntos e ficamos a falar em voz baixa. Uma vez ao meu lado abraça-me, envolve-me em um turbilhão de palavras doce e beija-me repetidas vezes.

– Marina onde você mora? – perguntei. – Na Rua Alto de Monte Alegre, respondeu-me distraída, olhando fixamente para um ponto qualquer. Marina permanecia imóvel, sorrindo. Levantei-me do banco e sem reparar que ela já havia posto o chalé rosa sobre a cabeça porque uma leve brisa fria vinda de noroeste passava pela praça naquela hora. – Está com frio? – Perguntei. Marina, no entanto, não me respondeu. Tirou da bolsa um casaquinho de lã xadrez, colocou sobre o banco da praça e sentou-se em cima. Seu olhar ardente fascina-me, queima-me, e quando enfim se afasta de mim, noto a sua atitude repta e ao mesmo tempo frágil; o seu ar meio de menina meio de mulher choca-se com o flamejar de seus olhos. Tantas vezes eu havia perguntado a mim mesmo naqueles dias subsequentes sem, no entanto, encontrar uma resposta. Ou melhor, encontrei isso, cada olhar dela, cada gesto, cada palavra sua, cada traço de suas feições, seus cabelos, cada fibra de seu corpo, tornavam mais fortes aquele encantamento.

Pela primeira vez, senti o feitiço, o “fascinium” dos latinos, o “envolvement” dos franceses, aquele misterioso fluido que atrai com inelutabilidade do destino, a obscura força contra a qual é inútil se debater. Marina era bela, elegante, sempre risonha. Ela correspondia plenamente a todas as exigências do meu espírito caduco e a sua mocidade, lisonjeava-me a vaidade. Hoje, já são passados alguns anos e eu nada mais soube dela. Chegou à velhice, cega, trôpega, porém, a recordação que nos cerca nunca envelhece. Que mais irei escrever ainda? Hoje, porém, passado alguns anos mal grado a minha vontade, tais acontecimentos que se sucederam depois, como costumam serem quase todos os arrebatamentos amorosos se perderam na recordação. Agora me sinto nesta solidão absoluta e percorro novamente, no automóvel, as ruas desertas de Lauzane Paulista na esperança de tornar a encontrá-la.

Hoje, o dia amanheceu cinzento e está chovendo forte. Para estar contente pouco importa que o vento arraste a tempestade lá fora e açoite com fúria os vidros do automóvel. Quanto mais densa é a cortina d' água mais pueril e límpida é a minha alegria. Encerramo-nos com ela e desejaríamos guardar como alguma coisa muito íntima a felicidade de sentir a alma tépida e reconfortada em meio ao desamparo da natureza. Sem motivo aparente o riso aparece-me nos lábios e pelos pensamentos, estimulado por alegres perspectivas de encontrá-la novamente, passam claras imagens daqueles menores detalhes de Lauzane Paulista. Ao longe, avisto, através do leque translúcido do para-brisa do automóvel, um risco fosco de tempestade no topo do serrado da Cantareira. No ar úmido, transparece a impressionante silhueta pontilhada das montanhas da serra encobertas por densa névoa, onde desaba o aguaceiro sob o vértice dos paredões de suas raízes. As vertentes das montanhas negrejam na sombra crescente e a água desliza por elas, trazendo um súbito fragor ao estalar de um trovão que faz trepidar aquela paisagem adormecida da Estrada do Guacá, na Genevre, na Praça Viana Alentejo, na Avenida Lauzane, na Conselheiro Moreira de Barros, Avenida Francisco Ranieri, todas elas envoltas na tempestade.

Hoje, porém, o vento e a chuva trás através do vidro baço do automóvel uma inefável e grata certeza de que ninguém poderá observar-me ou ver os meus olhos úmidos pelas tempestades interiores que me devastam a alma, do que pela tormenta que se arrasta com violência lá fora.

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