Ladrões dentro do hospital

São Paulo é a cidade que adotei como minha. Vinda do interior paulista, aqui terminei meus estudos, trabalho na minha profissão, me casei e, junto de meu marido, tento passar para o nosso filho de sete anos o bom aprendizado que a cidade oferece.

Não troco São Paulo por nenhuma outra cidade. Aqui encontro as oportunidades que preciso; respiro, entre a poluição também, uma mistura de experiências, vivências, trabalho, conhecimento, descobertas…

Falando em experiência, anos atrás pude passar por uma que, embora tenha sido assustadora, teve um final feliz. Sou farmacêutica e naquela época eu trabalhava na farmácia de um hospital (por conveniência, não vou citar o nome). Num determinado dia, envolvida naquela rotina do trabalho, percebi que havia assaltantes no hospital. Logo pensei comigo mesma: a coisa está brava, agora os ladrões estão diversificando seus nichos de ação.

Bom, soube dos ladrões depois que um de meus auxiliares entrou correndo na farmácia, branco como papel, dizendo que tinha visto vários indivíduos armados indo para a tesouraria. Imediatamente, tranquei as portas da farmácia e pedi que todos ficassem calmos. Em vão, pois todos começaram a falar ao mesmo tempo, tentando sugerir uma forma de sairmos de lá. Eu dizia que não havia outra saída, senão passarmos pelo corredor da tesouraria, ou seja, o melhor era ficar trancados na farmácia mesmo, aguardando o desfecho da situação e, se possível, calmos.

Havia uma funcionária que era portadora de diabetes e hipertensão arterial, e começou a passar mal. E nós, trancados na farmácia, com tantos médicos lá no pronto-socorro. Mas eu não podia deixá-la sair e buscar atendimento médico, passando em frente aos assaltantes. Sou contra a auto-medicação, mas não tive dúvidas: acabei medicando a moça com um comprimido de tranqüilizante retirado das minhas prateleiras. Logo, ela acalmou-se.

Eu estava apreensiva. Ouvíamos muita gritaria pelos corredores, gritos nervosos. Depois de aproximadamente três horas, tudo terminou, sem reféns, sem mortos ou feridos, e com os ladrões presos. Levamos a funcionária para o pronto-socorro e tudo ficou bem.

São Paulo é a cidade das contradições, pois mesmo trabalhando dentro de um hospital, onde a principal função é salvar vidas, naquelas horas, tive a sensação de que poderíamos perder as nossas.

Mesmo assim, é a minha cidade querida. Ela recebe pessoas de todos os lugares, crenças e raças. Pena que nem todos saibam corresponder à altura sua hospitalidade.

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