Jogando nos cavalos em Moema

No inicio dos anos 1950, o Jóquei Clube de São Paulo tinha apenas uma agencia de apostas fora do Prado. Era em sua sede social na Rua Boa Vista, localizada esquina com a Rua XV de Novembro e chamada de "Quitandinha", que aproveitava a parte de baixo para servir de casa de apostas.

Meu pai ia todos os domingos pela manhã fazer as apostas nesse local, pois a tarde ele ia trabalhar numa "ximbica" (bookmaker) do Itaim que fazia apostas clandestinas do
Jóquei. Para que meu pai conferisse as apostas sossegado eu marcava os resultados dos páreos. Já nos anos 1970 o Jóquei Clube de São Paulo, para facilitar a vida de seus apostadores, aumentou o numero de agencias de apostas, que antes se limitava apenas a "quitandinha", a única fora do jóquei.

Moema teve sua agencia oficial do Jóquei, (que anos antes era chamada de Bookmaker). Essa agencia ou Bookmaker do Jóquei ficava na Avenida Ibirapuera, quase na esquina com a Praça Nossa Senhora Aparecida, a poucos metros da igreja da nossa mais querida Santa.

Era um armazém grande com mesas, um bar para vender cervejas e refrigerantes a também sanduíches, no alto da parede alguns aparelhos de televisão ligados na TV Jóquei, era como se estivéssemos no próprio Jóquei Clube, tinha corrida de segunda a domingo exceto na terça feira, e os assíduos frequentadores lá estavam fazendo suas apostas.

Quase 100% dos apostadores em corridas de cavalos são homens. As poucas mulheres que vão ao jóquei são para fazer companhia a maridos ou namorados, e também dão seus palpites, nunca de acordo com o gosto dos homens que se julgam autênticos e catedráticos no esporte das rédeas. Mas é bom não desprezar palpites de mulheres porque zebras também aparecem cruzando o disco.

La no Jóquei uma moça estava com seu namorado e disse, em tom alto:
– “Benhê joga naquele cavalinho marrom com uma mancha branca”.

Catedráticos que estavam ao lado botaram a mão na boca para não rir alto. Se o namorado jogou ou não, ninguém ficou sabendo, Os que estavam ao lado muito menos, pois se tratava segundo a pedra de apregoação a maior zebra do páreo, e assim ficou até o fechamento do páreo. Quando os cavalos estavam perto do disco aquele cavalinho marrom estava na frente a dois corpos de vantagem pagando uma poule astronômica. Daí para frente os "irônicos e risonhos" não saiam do lado do casal de namorados para ouvir outro palpite, só que ela pegou o binóculo e ficou deslumbrada com a paisagem do jóquei e não prestou mais atenção nas corridas.

Em Moema tinha uma apostadora fiel. A Dona Marlene, mais fiel turfista do que a maior torcedora do Corinthians. Ela era a primeira a chegar ficava sempre na primeira mesa quase embaixo do aparelho televisor. Estava sempre com a revista Corridas em Cidade Jardim, com varias anotações dos cavalos que poderiam chegar em primeiro ou segundo lugar, para uma aposta no placê. De vez em quando ela levava o marido. Marlene era uma autentica catedrática em corridas de cavalos. Era difícil ela não ir ao guichê receber um dinheirinho, já que ela jogava uns trocadinhos. Para ela é melhor ganhar pouco do que perder muito.

Muita gente não gosta de ir às agencias, preferem ver ao vivo e em cores nas arquibancadas do Jóquei, principalmente a partir dos anos 1990, quando as arquibancadas especiais para os "bacanas" foram liberadas para o “povão”. Desde criança eu ia ao jóquei com meu pai. Eu e meu irmão ficávamos catando poule no chão enquanto meu pai e seu amigo jogavam. Eu entendia de tudo de corridas de cavalos, pois desde os 10anos de idade marcava os cavalos para ele que ia trabalhar na Ximbica da Rua Joaquim Floriano. Para quem não sabe Ximbica era uma Bookmaker, o mesmo que as agencias do jóquei. Só que clandestina. Coisa que o Jóquei proibia por que tirava os apostadores do Prado.

Também a transmissão das corridas que a Rádio Excelsior tirava os apostadores segundo os dirigentes, por isso foi proibida a entrada do locutor Vicente Chieregatti, para fazer a transmissão, mas os ouvintes do turfe não ficaram sem ouvir. O locutor da Radio Excelsior se alojou no morro que ficava a frente do Jóquei e com seu potente binóculo transmitiu normalmente, então os dirigentes do jóquei permitiram que ele voltasse a ocupar a cabine de transmissão.

Em 1953, em um feriado de 1º de Maio, com céu azul, um verdadeiro convite á uma bela tarde no Jóquei, fui com meu pai que estava com um amigo. Logo no primeiro páreo corria um cavalo de nome Cyro, montado pelo bridão Pierre Vaz. Falei:
– “Pai joga o numero um, esta em boa baliza deve ganhar”.

E tive a seguinte resposta:
– “Cala a boca moleque, não fica dando palpite errado”.

Corrido o páreo, Cyro chegou ao disco com vários corpos de vantagem. O amigo do meu pai olhou pra ele e disse:
-“E agora amigo?”

Daí para frente eu, como filho de turfista, me tornei "um turfista". Todo o dia, antes do primeiro páreo, ouvia sempre a mesma ladainha:
– “Hoje arrebento o, Ú do Jóquei!”

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