Joelma

Eu fui das primeiras pessoas a ver que o Joelma estava pegando fogo. Naquele momento, muita gente ainda adentrava o prédio e eu tive vontade de correr até a entrada para avisar, mas preso pelo trânsito, na ilha da Avenida Nove de Julho, não consegui atravessar e de lá presenciei a evolução da tragédia. Eu jamais esquecerei o que vi. Pessoas que se equilibravam em espaços reentrantes externos em diversos andares à espera de salvamento. Gente desesperada no terraço, correndo de um lado para o outro, tentando fugir das labaredas. De repente, alguém se atirou e acabou indo de encontro a outra pessoa que já estava descendo pela escada magirus, morrendo ambos. Uma mulher jogou-se com uma criança. Mas a cena mais rara foi a de um rapaz que ia descendo lá do alto, onde a magirus não alcançava, por fora do prédio. Ele se agarrava ao piso da sacada, balançava o corpo e deixava cair no andar de baixo. A cada andar vencido ao encontro da magirus que não chegava até ele, a vibração popular era como aquela que acontece quando o Brasil marca um gol na Copa do Mundo. E ele se salvou assim, mas tendo que ainda dar um passo no espaço para tocar com um dos pés a escada. Foi a coisa mais emocionante que vi até hoje.

Num dado momento, eu preferi ficar onde não via aquelas imagens mais dramáticas de gente que se atirava ou que estava prestes a ser devorada pelo fogo. Fui ficar na Rua João Adolfo e, lá preso ao chão, fiquei orando por aquelas criaturas em desespero. Voltando para o meu apartamento, na Rua Japurá, muito próxima do Joelma, ouvi apelos no rádio para que se levassem pomadas e lençóis para serem colocados nas vítimas de queimaduras, que eram transportadas para o heliporto da Câmara Municipal. Peguei em casa todas as pomadas que tinha, alguns lençóis e cobertores, fiz uma coleta nos apartamentos vizinhos e levei o que consegui para a Câmara Municipal. Pouco depois, assistindo à televisão, ouvi a relação de nomes das pessoas desaparecidas que estavam sendo procuradas pelos parentes, e entre os nomes estava a de um amigo e ex-colega das Abril, o Wagner De Luca, que eu nem sabia que estava trabalhando no Citibank. Eu não queria acreditar que se tratava daquele meu amigo, que junto comigo escapara, com uma perna quebrada, de um acidente de carro grave, na Rua Afonso Celso, quando um ônibus arremessou o meu Henry Jr. contra o muro do Colégio Arquidiocesano – o que sobrou do carro eu doei para a Casa André Luiz. Lembrando que ele, com o dinheiro que recebera ao sair da Abril, comprara para dois irmãos uma charutaria na Sopa Paulista da Avenida Ipiranga, fui até lá e, infelizmente, tive a confirmação de se tratava mesmo dele. Solidário com os dois irmãos do Wagner, acabei os acompanhando ao IML, onde estavam alguns corpos para identificação. Foi um espetáculo dantesco o que vi. Algumas das vítimas, com a aparência de negros bonecos de cera, estavam numa postura de defesa, como que tentando proteger a cabeça das chamas. O fogo reduzira em muito o tamanho daquela pessoas. Apenas uma delas parecia apenas estar adormecida sobre uma maca e com um pequeno cartão de identificação preso por um fio a um dos pés. Era aquela moça que, em algumas fotos do incêndio, se vê deitada sobre o parapeito do terraço. Ela, que morrera sufocada, parecia apenas dormir. O Wagner De Luca, que iria se casar na semana seguinte, morreu e, ao que parece, morreu no elevador do prédio, pois, um ano depois, encontrando-me com outro ex-colega da A, no Largo São Francisco – o Antônio Vasques – contou-me ele que na hora do incêndio estava conversando ao telefone com o Wagner sobre a possibilidade de se empregar também no Citibank. Foi quando o Wagner disse que estava um cheiro de queimado ali e que ele iria ver do que se tratava. De volta ao telefone, apressado, O Wagner disse ao Vasques que precisava sair correndo, pois havia um incêndio ali.

Isto é tudo o que vi e o que sei. Tristemente, inesquecível…

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