Num dia chuvoso, revirando uma velha caixa de coisas antigas, encontrei um registro que me proporcionou uma viagem.
Uma foto de meu pai de terno sem gravata e chapéu (moda na época) com mais dois amigos no Jardim da Luz, em 1945. Foto amarelada, porém ainda se lia no pé direito, bem apagadas, as incrições a mão com caneta-tinteiro: "Três caipiras em São Paulo". Foto tirada com aquele fotógrafo que tem uma máquina enorme sobre um tripé e que se esconde embaixo de um pano preto, muito comum no Jardim da Luz até a pouco tempo.
Fiquei imaginando meu pai saindo naquela época de Destêrro (atual Floripa) em 1945, por estradas inimagináveis, como meu irmão contava, para buscar caminhões na Ford em São Paulo sem cabines, e dirigi-los até o sul, o que eram dias de viagem.
O motorista, feito astronauta, usava uma indumentária contra sol, chuva, ventos, intempéries e bafos demoníacos. Dependendo do tempo e das subidas, o motorista tinha que colocar correntes nas rodas dos caminhões para fazer papel de tratores e superar subidas íngremes com lama. Dormir no meio do caminho sobre o caminhão ou no mato, muitas vezes com chuvas, não era incomum. A velocidade na maioria das vezes não superava os 30km/h,sem contar que as estradas na época faziam geografias inter-Via Lácteas.
As saídas de São Paulo eram como se fossem idas para a guerra, tudo era levado: comida, água, agasalhos, toalhas, sabonetes, roupas de cama e medicamentos. Eram, na verdade, grandes aventuras. Como não existia comunicação, contávamos os dias de ida, estadia e vinda, tudo através de calendários. Os dias passavam e não víamos a hora de ouvirmos os roncos dos enormes caminhões em suas chegadas triunfais trazendo um sorriso no rosto saudoso de meu pai.
Era assim antigamente, sobrevivíamos num mundo bem distante das tecnologias que meu pai nunca conheceu.
Tudo que fez, passou e aventurou, via agora transformado apenas numa foto desbotada no fundo de uma caixa esquecida.
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