Ipiranga, uma cidade dentro de São Paulo

No sábado passado estive na Rua Silva Bueno, Ipiranga, conversando com meu amigo Luiz Dias, que foi proprietário dos jornais "O Grito" e "TaQuí", quando me mostrou um recorte de jornal de um artigo de minha autoria. Como ele está lançando um novo jornal, "Silva Bueno News", perguntou se poderia publicar. Confesso que nem lembrava mais daquele artigo. Resolvi reler e confesso que nem acreditei que aquele texto saiu da minha cabeça. Isso ocorreu há quase dez anos. Por considerar que o tema é atual, tomo a liberdade de exibi-lo aqui, para que os leitores do São Paulo Minha Cidade possam fazer uma avaliação mais criteriosa. Uma coisa posso garantir: tudo o que narrei abaixo é a mais pura realidade. No mais, boa leitura:

"Bairro do Ipiranga. Nem parece um bairro. Parece mais uma cidade incrustada nessa megalópole mundialmente conhecida pelos seus contrastes. Uma daquelas cidades do interior que tem seu prefeito, vereadores, juiz, promotor, delegado de polícia, unidade da Polícia Militar e por aí afora.

Bairro-Cidade que tem uma população formada. Onde todos se conhecem, independente de classe social ou econômica. Onde os empresários e prestadores de serviços se reúnem para a discussão dos problemas que afetam a localidade.

Uma cidade que tem sua vida social organizada, com clubes tradicionais, espaços para atividades culturais, esportivas e de lazer. De seus cinemas das décadas de 40 e 50, hoje fechados ou destruídos. Ipiranga-Cidade de seus shoppings, de suas importantes rodovias Anchieta e Imigrantes.

Bairro-Cidade onde rotarianos e leões (do Lions Clube) se encontram periodicamente dentro do lema: "Dar de si sem pensar em si". Das entidades filantrópicas defensoras dos reais interesses daqueles que sofrem.

Ipiranga, Bairro-Cidade, cuja população é solidária e está sempre pronta para ajudar no que der e vier, dentro do preceito: "Fora da caridade, não há salvação", graças aos ensinamentos emanados de diversos templos religiosos, não importando se católicos, protestantes ou espíritas. Das maçonarias e seus trabalhos milenares. Das escolas públicas e particulares. Das universidades, sempre preocupadas na formação do cidadão do amanhã.

Ipiranga-Cidade, criada pelos colonizadores e abençoada pelos jesuítas. Uma comuna deitada eternamente em berço esplêndido, palco de um grito heróico e retumbante às margens plácidas de um riacho com suas águas cristalinas. Hoje não tão cristalinas assim, mas que continuam sendo o símbolo da nossa independência. Grande Ipiranga, que em seu seio resplandece sua pujança e seu poderio.

Ipiranga-Cidade um fenômeno dessa Selva de Pedra com a mistura de raças, credos, idades, grupos sócio-econômicos e ideologias políticas. De suas fábricas que produziam de tudo e hoje estão derrubando as chaminés e substituindo por imponentes prédios residenciais ou comerciais.

Ipiranga-Cidade, dos sorrisos das suas crianças e da juventude varonil. Dos velhinhos e velhinhas que aqui viveram, formaram famílias e hoje se sentem orgulhosos em comentar feitos do passado, em casa, nas praças floridas e verdejantes ou nos grupos da terceira idade.

Bairro-Cidade das históricas mansões que abrigaram os barões do café e os comendadores que aqui instalaram inúmeras e importantes indústrias, empregando milhares e milhares de pessoas. Dos seus monumentos, onde descansa em paz o grande personagem da independência brasileira. Dos museus com seus ricos e inestimáveis acervos culturais e artísticos.

Ipiranga-Cidade, de seus 424 anos de existência. Quatro séculos de muitas lutas e conquistas. Bairro dos que já se foram e não voltam mais. Dos que aqui continuam te adorando como sua terra-mãe.

Ah… Ipiranga-Cidade… Quiçá pudesse descrever em prosa ou em verso tudo de bom que tens. Mas sairia um dicionário. Uma Bíblia. Assim, nessas mal traçadas linhas, presto aqui a minha singela homenagem e me reverencio a todos que a construíram e aos que a mantém impávida".

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