Corria o ano de 1954. Corinthians campeão do IV Centenário de São Paulo. Eu começava a entender o futebol. Havia perdido meu pai dois anos antes e era o mais velho, tinha 10 anos, de quatro irmãos. Minha mãe, coitada, analfabeta, sem dinheiro, trabalhando de doméstica, não tinha com quem deixar os filhos pequenos. Não restou alternativa senão colocar-me em um colégio interno e minhas irmãs em outro, ficando apenas com meu irmão, o felizardo, menorzinho.
Acabei sendo internado no então Orfanato, depois Instituto Cristóvão Colombo, no Ipiranga. Lá, sob a supervisão dos irmãos Carlistas, Ordem de São Carlos. Completei o ensino primário nos anos de 1955 e 56. Tenho boas e gratas recordações desse tempo em que lá vivi. Lembro-me bem das aulas de música com o irmão Francisco, saudoso, as broncas do irmão Leão, as missas com o irmão Danilo e outros, pois logo me tornei coroinha e ajudava nas missas, que eram rezadas em latim.
Lembro-me das idas à igreja de Santo Antonio, na Praça do Patriarca, onde eu e outro colega ajudávamos nas missas e nos outros afazeres, retornando ao ICC no final da tarde, sempre de bonde. Lembro-me do imenso dormitório, que diziam que era mal-assombrado. Dos pátios internos, do campo de futebol, das oficinas, do galinheiro, do Melquíades e do João Tomazelli, meus amigos de lá. Por onde andam vocês?
Um dia tive um enorme corte no pé, com um caco de vidro. O irmão Francisco me levou de cavalinho e depois de carro até o hospital, pois eu sangrava muito e não podia por os pés no chão. Eu me sentia muito solitário, pois minha mãe, por falta de dinheiro, raramente ia me visitar. Era muito triste ver a maioria dos meus colegas receberem visitas e guloseimas, abraçarem suas mães ou seus pais, enquanto eu ficava em um canto qualquer, observando tudo e perguntando a mim mesmo porque minha mãe não aparecia. Cheguei a pensar em fugir dali, mas para onde eu iria?
Enfim, um dia de dezembro ela apareceu para me levar embora. Lá deixei uma parte da minha vida que jamais esquecerei, pois a formação que ali recebi me ajudou em meu crescimento como ser humano e a ser o que sou hoje. Agora, só restam saudades. Quando puder, um dia pretendo lá voltar para fazer uma visita e relembra um pouco mais do meu passado.
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