Acreditem que eu recusei
por diversas vezes
o convite para andar
naquele carro.
Mas repentinamente,
sem que eu pudesse escapar,
aconteceu.
Estava na casa da sogrinha
e meu genro liga para minha filha
que estava com a gente
e pede para que eu leve o carrinho
que ficou estacionado
no fundo do quintal por três semanas,
durante as obras na casa da filha.
Agora com a garagem livre
de materiais de construção,
o Pedro tem que levar aquele carro,
dirigindo por uns vinte quarteirões,
aquele fusca verde oliva 1966,
igual ao primeiro carro que eu tive em 1968, quando tirei a carta de motorista.
Entrei no fusca emocionado,
lembrando do volante delgado,
botões, bancos, pedais,
depois de brigar com a chave de partida
que parecia estar com o contato girado.
O carro estava muito próximo da parede,
pedi ajuda para a minha filha olhar.
Depois de algumas tentativas
o carro pega e diminuo o afogador
controlando o acelerador
para ele não morrer,
ora acelerando,
ora rezando,
ora torcendo.
Tentando por três vezes
engatar a marcha ré
e não consigo,
não entra mesmo.
Depois percebo que eu estou
viajando na maionese,
tentando engatar para cima.
Respiro.
Apoio a mão na alavanca do cambio,
aperto para baixo,
trago para a perna
e movimento para trás.
Engata a marcha ré
e o carrinho começa a andar.
Naquela noite dirigi
por dez minutos
aquele carrinho
maravilhoso,
testemunha
de tantos acontecimentos
na minha vida.
Levei o fusca
pela Avenida República do Líbano
e ele me levou
emocionado para o passado,
sem que eu pudesse reagir,
inacreditavelmente
voltando para 1968.
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