Imigrantes e "oriundi" – Tradições que vão desaparecendo.

"Haec ornamenta mea"

Essa frase latina, citada acima, é a primeira coisa que vem a minha cabeça quando penso no dia das mães. Depois me vem à lembrança os fragmentos da música que cantávamos no galpão do Grupo Escolar Pandiá Calógeras antes de, em fila, seguirmos para as classes, durante o mês de maio:

"Mês de maio.
Mês de Maria!
Festejemos Maio,
Com muita alegria"

Na classe, a professora de catecismo nos falava da importância desse mês, dedicado à Nossa Senhora. Dizia-nos que maio é o mês mais lindo do ano e o mais importante, pois nele se comemora o Dia das Mães! A professora, até quase às vésperas do Dia das Mães, reservava uns quinze minutos do tempo de aula para nos ajudar a criar e confeccionar os cartões que daríamos às nossas mães e avós.

No fim de semana, bem antes do Dia das Mães, papai e vovô me levavam à Cidade (hoje o centro histórico), para que eu comprasse mimos e lembrancinhas para as minhas duas mães.

Caminhávamos pelas Ruas Direita e São Bento, de ponta a ponta, de lado a lado, em busca de pequenos tesouros. Entrávamos nas Casas Slopper, Casas Bim-Bam, Casas Fretin, etc… Nada de presentes caros ou extravagâncias: lencinhos de bolsa bordados, bichinhos e pequenas estatuetas de "biscuit", caixa de sabonetes ingleses, caixas de bombons, etc. Só uma única vez eu fiz uma extravagância: Assassinei meus quatro porquinhos de cerâmica, que estavam "bem cevados" e dei à minha mãe um "portacippria" (estojo para se colocar pó-de-arroz) florentino, banhado à prata e com uma pedra de jade (imitação), comprado no Mappin, dei também à minha avó um terço de lápis-lazúli lindíssimo, que comprei no Mosteiro de São Bento…

Homenagear as mâes no seu dia era mais que um ato importante para os imigrantes e "oriundi" italianos; Era um dia Sagrado. Homenageavam-se todas as mães: as ausentes e as presentes. No Cemitério da Quarta Parada (no Brás), na véspera do Dia das Mães, os túmulos, muito limpos, eram cobertos de flores e acendia-se muitas velas. As igrejas da Moca e do Brás recebiam visitantes, que acendiam velas e lamparinas no altar da Madona em homenagem às mães vivas e falecidas que ficaram na Itália…

Véspera do Dia das Mães era uma loucura! Minha casa era o centro do mundo familiar, pois nela estavam os meus avós. Sábado após o almoço chegavam as minhas tias, que entravam e iam direto para a cozinha, onde as mulheres lavavam louças, verduras e legumes, temperavam as carnes, colocavam o molho para apurar, preparavam a massa dos cappellettis e a massa do bolo… Réstias de alho e cebolas desapareciam como por encanto. Era quase de noite e minhas tias ainda estavam lavando as louças e preparando a "zuppa" (sopa) que seria o nosso jantar. A Tia Rosaletta, entre anilinas, açúcar, saco e bicos de picotar, enfeitava o bolo enorme em forma de coração do Dia das Mães, com rosas de glacê real. Quando o bolo estava finalizado e a "zuppa" pronta, elas começam a limpeza da cozinha…

Jantávamos quase 21h! Terminado o jantar, nova incursão das tias à cozinha: lavar a louça, guardá-las e deixar tudo "brilhando” para o domingo. Eram quase 23h quando as tias foram embora.

Indo para a cama, passei pela sala de jantar reparando no clima de festa deixado pelas minhas tias. Sobre o aparador estava a porcelana branca com a decoração de espigas de trigo em relevo; porcelana que era usada apenas em ocasiões especiais. Reparei no brilho dos talheres de "prata princesa" dentro do estojo; a toalha de linho muito branca e os guardanapos com o monograma da vovó. No aparador menor, os vinhos Bolla, os decantadores, o saca-rolha, as jarras de água e os cristais.

Ao sair da sala reparei quão pequeno ficara o jarrão de rosas, no centro da mesa aberta, com os dois aumentos. A família era tão grande… Tão grande que as crianças precisavam almoçar na mesa, também aberta, da cozinha…

Era domingo e passava um pouco das 08h, quando Caruso, através da vitrola entre chiados e ranhuras, entrou em nossa casa cantando a todo o volume "Mamma". Pelas 09h chegaram outros tio e tias, que começaram a arrumação da casa e a preparação do almoço. Só vovó ficou sem ter o que fazer. Afinal, embora todas fossem mães, a "nonna" era a matriarca e aquele era o seu dia de rainha.

O almoço foi um sucesso! Sucesso porque havia amor, fraternidade. Um calor humano tão forte que poderia incendiar o mundo. Findo o almoço, chegou a hora do bolo e da entrega dos presentes. Vovó, emocionada, deu o primeiro corte no bolo em forma de coração e, em sequência de idade, cada um cortava um pedaço e servia.

Emocionada, com a voz embargada, minha "Nonna" abriu os braços, como se estivesse abraçando a todos nós e disse:
– "‘Haec ornamenta mea’ – Eis as minhas jóias (ornamentos)”.
Os adultos se emocionaram! As tias ficaram com os olhos marejados de lágrimas e abraçaram a vovó.

E nós, os netos e filhos, ficamos a ver navios. “O que será que a "nonna" dissera?” Só podia ser palavrão! Mas que tipo de palavrão? Meu primo Berto achou que era palavrão brabo, pois as tias choraram e foram abraçar vovó "pedindo perdão"… Berto foi até sua mãe e cochichou-lhe no ouvido. A mãe respondeu ao cochicho e ele veio até nós, todo sorridente. Falou:
– “Minha ‘mamma’ disse que a ‘nonna’ falou em Latim.”
Parou de falar, pensou e despejou:
– “Mas ela não disse que ‘cazzo’ de palavrão a ‘nonna’ falou!”

– "E que ‘cazzo’ é Latim?”, pensava.
E para nos dizer que tipo de palavrão uq a vovó dissera, nada melhor do que consultar o Tio Amedeo. Decepção total. O Latim era uma língua antiga e vovó disse exatamente a frase que ela mesma traduzira…

Mais tarde, perguntado, o vovô nos contou a história da frase dita por uma mulher maravilhosa a quase dois mil anos. Falou-nos de Cornélia, a Virtuosa – a mãe do Graccos. A mulher e mãe mais conhecida, amada e respeitada em todo o Mundo Romano. Viveu para os filhos e pelos filhos. Mulher nobre e culta, respeitada até pelos inimigos, era tão amada que lhe erigiram uma estátua de bronze, no Fórum Romano.

Sobre a frase, ele nos contou que certa matrona arrogante acintosamente exibiu para Cornélia seus ricos ornamentos (jóias) com gemas preciosas. E Cornélia mostrando os seus dois filhos, Tibério Gracco e Caio Gracco, respondeu-lhe:
– "Eis as minhas jóias (ornamentos) – ‘Haec ornamenta mea’”

Mais que a história de uma mãe e sua frase, vovô nos fez entender que nós todos éramos as jóias mais preciosas que vovó possuía. Que todos éramos a maior riqueza que ela possuía neste mundo. E todos nós, envolvidos pela ternura e o amor que sentíamos (sentimos ainda) pela "nonna", ficamos a olhá-la com olhos de adoração.

Meu primo Berto quebra o silêncio e nos diz emocionado:
– "Como eu gosto dessa ‘nonna maledetta’”
Concordamos com ele…

Vovó e mamãe, aonde quer que estejam, recebam as vibrações de amor deste "ornamenta tua". "Nu felice 'Iurn'e Mamme!" – Um Feliz Dia das Mães!

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