Estava no saguão do Aeroporto de Guarulhos à espera de um vôo que me levaria a Milão. Enquanto a hora não chegava, atrasos como sempre, eu me distraía olhando os passantes que transitavam por ali. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o grande número de pessoas, de todas as idades, calçando tênis. E como uma coisa puxa outra, fiquei pensando na triste sorte dos engraxates que com esse modismo de mau gosto, no meu modo de ver, perderam seu trabalho. Lembrei-me dos tempos em que engraxates e barbeiros viviam no mesmo espaço e era gostoso ver aqueles senhores, alguns já com certa idade, fazendo estripulias com a escova e o pano de lustrar, oferecendo verdadeiros shows de ritmo (Samba ou bolero, doutor?) aos fregueses na Avenida São João, na Ipiranga, no Largo Paissandu. Os barbeiros num determinado período também foram ameaçados em sua profissão pela moda dos longos cabelos. Recuperaram-se, mas os engraxates talvez tenham de esperar algum tempo até que os sapatos voltem à moda. Façam seu jogo!
E as calças? Nada de tergal, casimira, linho e outras matérias-primas: jeans, jeans e mais jeans de cores variadas, desbotadas ou não, com rasgos ou sem rasgos. Escolha!
Gravatas. Vi apenas duas: um senhor idoso, com jeito de pastor, e um sujeito que estava com camisa de cores berrantes, gravata mais colorida ainda e… sem paletó. Devia ser desses americanos, mestres na arte de mal vestir-se.
Na TV da sala de embarque, Jack Nicholson brilhava em Chinatown, usando charmoso chapéu, definitivamente fora de circulação, para tristeza das indústrias Ramenzoni, Prada e Cury que disputavam o mercado dessa elegante peça. Foi substituído pelos bonés, usados em todas as ocasiões e que alguns tëm o mau gosto de colocá-los com a aba para trás.
Estava envolvido nessas divagações quando foi anunciado o embarque da Alitalia para Milão. Levantei-me e com cabeça erguida, passos firmes, trajando sapatos bem engraxados, calça esporte-fino, camisas de mangas longas, gravata e um vistoso Blazer dirigi-me ao portão de embarque, com a certeza de que era o mais elegante de todos os que ali estavam e, por isso mesmo, paradoxalmente, destoando… fora de moda.
Boa Viagem!
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