Confesso que foram patéticas as minhas primeiras idas à feira depois de casada.<br><br>Sempre vi poesia nas feiras de São Paulo. Aquela mistura alegre de frutas, verduras, legumes, pimenta moída, o saquinho pronto com o colorau, o coco ralado, a barraca das bolachas com docinhos interessantes e cheios de meiguice, os sacos de arroz, de feijão, de batata inglesa. O charme dos calçados e sandálias expostas, as roupas penduradas ao sabor do vento, exibindo suas cores e os tamanhos variados, sempre com a simpatia dos vendedores. E o pastel do japonês… Esse é imbatível. Antes só existiam dois tipos: queijo e carne e agora tem pastel até de cajuzinho. Quando criança eu ia com a minha mãe a esse espaço mágico e colorido e ela comprava às dúzias. O cheiro diversificado da feira só perde para o mercado público em tempos de primavera.<br><br>Mas aí eu me casei e ir à feira virou uma coisa estranha. A poesia virou dúvida sem nenhuma resposta a curto prazo. Após o retorno da viagem de lua de mel, não havia jeito, tínhamos que comprar alguma coisa para comer.<br><br>Saímos da nossa pequeníssima casa na Vila Sônia e, sorrindo, fomos com uma sacola na mão realizar a temível empreitada. Mas, e agora? Comprar o quê? Eu não sabia fazer nada. Então – ainda sorridentes – andávamos como se estivéssemos a passeio, na descontração dos anjos. E logo concluí que o bom mesmo seria comprar um pé de alface. Quem sabe, um pouco de banana também. Couve? Acho que não. Eu não sabia bem essa coisa de cortar tudo bem fininho. <br><br>Não me lembro do resto, mas sei que foi um caos. Nós só poderíamos voltar a fazer compras na semana seguinte e a comida teria que durar sete longos dias. Evidentemente comíamos muito mal.<br><br>Um dia eu resolvi cozinhar feijão. Seria o máximo da minha vida como nova dona de casa. Feijão! Mas que prova de fogo! Telefonei para a minha madrinha e ela me deu o “passo-a-passo” com muita satisfação. Alguns sábados depois, o meu marido foi sozinho à feira e eu disse: <br>- “Traz também um pouco de coco ralado”.<br><br>Ele não teve dúvida e saiu para comprar a comida para a semana toda. Pegou emprestado o carrinho de feiras da minha sogra e foi valente e decidido a enfrentar mais esse desafio colossal. Trouxe o carrinho abarrotado com todas as compras, que se resumiram em duas melancias inteiras, dois maços gigantescos de couve e dois cocos sem ralar.<br><br>E-mail: [email protected]<br>