Moro na região da Saúde, no ponto mais elevado do outrora pacato bairro paulistano. Devido à localização, em um ângulo de 180 graus, me era permitido vislumbrar no horizonte, sem quaisquer interferências visuais, muitas montanhas que até pareciam próximas fisicamente. Todo amanhecer ensolarado e ainda sem a inevitável poluição diária me proporcionava esta visão emoldurada pelo céu azul com nuvens brancas.
De repente, não mais que de repente, ergueu-se o primeiro e meses após, o segundo… O terceiro… O trigésimo… O enésimo. Para ser exato, do ano de 2006 até o presente momento, dezenas de carrancudos e hostis edifícios, brotaram como pés de feijão. Um se interpondo ao outro. Aos poucos, foi-se projetando e desenhando um cinzento paredão arquitetônico nas pranchetas da especulação imobiliária. É o selvagem e insensível progresso, muitos dirão. E assim, de forma indelével, proibiram meu horizonte e se apropriaram da "minha paisagem"; até compreendo, mas não me conformo.
O golpe de misericórdia viria a seguir. Abrindo as janelas da sala e dormitórios tinha o privilégio de admirar parte da igreja católica situada no arborizado largo Santa Ângela a dois quarteirões da Avenida do Cursino. Meus olhos alcançavam metade de seu corpo se estendendo até a enorme cruz no alto. Em poucas semanas, dois prédios enormes se elevaram entre mim e a sempre confortante imagem do santuário. Fazia bem aos olhos e espírito.
No lado oposto, através da vidraça na cozinha, observava a aproximação dos aviões rumo ao aeroporto de Congonhas. Entre as brechas das silhuetas formadas pelos condomínios residenciais e empresariais era possível ver as aeronaves já na pista. Um bloco do conglomerado do banco Itaú, próximo à estação Conceição do metrô, "escondia" a aterrissagem e um trecho do percurso em direção ao ponto de parada. Para variar, os constantes empreendimentos imobiliários surgidos do nada, paulatinamente, vetaram também os espaços da outra metade do meu horizonte.
À distância, imaginava e revivia mentalmente o antigo "programa de índio" em São Paulo: passeio à Congonhas para tomar um café expresso e ver aviões subindo e descendo; às vezes arremetendo, e acreditem se quiserem, até "deixando cair" uma porta que anos atrás, se espatifou na laje de um hipermercado da movimentada Avenida Abraão de Morais.
De triste memória, em 17 de julho de 2007, exatamente às 18h51m, um avião da TAM (voo 3054) ultrapassou o fim da pista 35L durante o pouso e se chocou contra o depósito de cargas da própria companhia, situado nas proximidades da cabeceira da pista 17R, no lado oposto da Avenida Washington Luís, que delimita o aeroporto. Notei o repentino clarão do incêndio, mas ainda não sabia do acidente. Imediatamente, a emissora de rádio que eu sintonizava naquele momento, noticiou a terrível tragédia.
Simples assim. Sempre assim, lá se vão os espaços e paisagens no horizonte. Sendo assim, as lembranças são inevitáveis; como não sentir saudades daquela São Paulo dos anos 50 e 60? A verticalização desenfreada da cidade só não conseguirá proibir a visão do céu. Será que não? Aos estimados leitores do SPMC, um forte abraço deste paulistano, na curva da vida e agora… Sem horizonte.
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