Jardim América dos anos 50 e 60
Todos os dias passava em minha rua, aliás, Alameda Lorena, um cidadão que sempre me intrigou. Era um mendigo muito carismático. Deambulava com um maço de jornais embaixo do braço e exclamava a altos brados: – Tê tê tê, Getulio Vargas vai perder! Ele era robusto, atarracado e tinha uma grande cicatriz na fronte, seqüela de uma pancadaria ou de um acidente que provocou um delírio permanente e obsessivo! Quando ouvia "tê tê tê" lá estava eu no jardim de frente para observar o personagem, a quem minha mãe dava sempre um prato de comida. Era costume das famílias católicas e generosas do bairro praticar a caridade cristã.
Seria ele demente? E porquê? Esse personagem ressoa ainda na minha memória porque com o tempo, compreendi porque meu pai tinha uma grande pena dele. Ele bem sabia, lá consigo mesmo, porque era médico e havia trabalhado num Pronto Socorro do Rio de Janeiro, que o nosso Têtêtê era uma vítima da tortura que a polícia de Getulio praticava aos que se opunham à Ditadura do Estado Novo. Têtêtê não era louco, fizeram-lhe perder o juízo. E ele sem cessar, não deixou de denunciar, sozinho, abandonado e maltrapilho, as grandes injustiças e a grande repressão que se praticava nesse nosso país.
O bairro do Jardim América se transformou com o tempo. Hoje em dia há bares, restaurantes e um comércio de luxo. E freqüentado por uma clientela que se acha chique e internacional, consumista e prepotente. As casas de família desapareceram quase todas.
A última a abandonar a sua foi minha mãe, que lá ficou como guardiã da memória e da história do bairro, que era pacato, familiar e solidário.
As crianças todas brincavam na rua, faziam cabanas com os galhos das árvores, desciam a Rua da Consolação com os carrinhos de roleman, iam ao cinema Paulista sozinhas, queimavam o Judas no Sábado de Aleluia amarrado a um poste, soltavam balões. No quintal do meu avô que morava ao lado, eu tinha até um cabrito de estimação e trepava nas jabuticabeiras para comer os frutos no pé, o que me dava sempre uma grande indigestão!
O que sobrou daqueles tempos quando ainda havia garoa e um friozinho úmido que penetrava nos ossos? Nosso Têtêtê. Dedico essas simples palavras a sua memória para que nunca mais o Brasil produza testemunhas da Ditadura, e os tratem como loucos!
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