Hoje, não faria nunca

Olha, já nas diversas histórias que escrevi aqui mostrei que era uma criança muito arteira, traquina mesmo. Quando cresci, não mudei muito. Era um jovem alegre e vítima da inconsequência quase natural, embora reprovável, da maioria dos jovens.
 
Muito bem… Quando meu avô foi-se embora deste plano de vida, o Fusca 71 dele ficou comigo e eu dei uma incrementada nele. Entre outros itens com os quais equipei o fusquinha, pus nele uma buzina a ar, destas de caminhão. Um belo dia, eu estava descendo a Rua Marrey Junior, lá na Parada Inglesa. Esta rua é um declive suave, não chega a ser ladeira, mas longe está de ser plana. Se você soltar o veículo, ele desliza suavemente, sem alcançar níveis perigosos de velocidade. 
 
Ao longe, bem a frente, eu vi a Dona Zulmira, mãe do Toninho, e a Dona Maria, mãe do Rolha, descendo a rua, caminhando bem no meio do leito carroçável. Iam lá as duas, caminhando calmamente, batendo papo. Ambas nesta época deviam ter lá pelos seus 50 e poucos anos, já que eram pouca coisa mais velhas que minha mãe, que na época tinha 45 anos.
 
Gente… Não tive dúvidas, soltei o carro no ponto-morto e bem devagarzinho me aproximei delas, quando estava quase em cima, acionei a buzina. Pelo amor de Deus, as duas deram tremendo salto, que jamais me esqueci na vida. A Dona Zulmira saiu correndo para a calçada e a Dona Maria ficou estática, paralisada no meio da rua.
 
Quando elas viram que era eu e o que eu tinha feito, e ambas me conheciam desde o dia que eu nasci, me xingaram tanto, mas tanto, de tudo que elas podiam xingar. A Dona Zulmira, que era mais esquentada, chegou mesmo a me dar uns tabefes no braço e umas bolsadas no bumbum.
 
De imediato me arrependi. Não pensei que elas iam se assustar tanto e, depois de muito implorar pelo perdão delas, acabaram por me perdoar, porém, por castigo, tive que levar as duas para fazer compras no Armazém do Seu Pedro e perdi toda aquela tarde de sábado (era um sábado) carregando as duas para cima e para baixo. No fim do dia, a gente já estava dando boas risadas sobre o que tinha acontecido. Mas se fosse hoje, eu não faria nunca uma coisa dessas.