Nas noites enluaradas, buscava as sombras das marquises, atravessava as ruas em pontos sem luz. Talvez tivesse um segredo, mas, se tinha, jamais comentara com quem quer que seja.
Era alto e ligeiramente curvo. Vestia-se de cinza e dizia que gostava de tango, mas penso que esta preferência musical lhe fora creditada apenas pelo aspecto soturno que apresentava. Samba, por exemplo, não combinaria com aquela figura caricata. Um dia correu a notícia que falecera.
Ninguém soube ou se preocupou em saber se era verdade. Passo Triste apenas soçobrou no anonimato das ruas. Decorridos aí uns 10, 12 anos. Ele foi visto novamente na região e então, falou-se em fantasma, em morto vivo, mas a verdade é que, mesmo quando verdadeiramente vivo ele não passou nunca de um cadáver aos olhos de quem o percebia.
Quando percebia, posto que, na cultura ocidental, um homem é o que nele os outros projetam, o que dele os outros pensam e, em Passo Triste, projetou-se sempre e sempre o inexplicável.
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