Vocês, que já dobraram o "cabo da boa esperança" e ainda não se "tocaram", devem se lembrar da época em pagávamos a conta de luz na própria Light, na Rua Xavier de Toledo. Lembram? Vou então explicar aos outros a forma em que era realizada a cobrança.<br><br>A Light, (antiga mantenedora da distribuição de energia elétrica pra São Paulo, que agora atende pela sigla "AES Eletropaulo"), enviava a todas as residências que tinham energia elétrica uma folha de papel no formato retangular, onde estavam descritos os seguintes itens: valor a pagar, consumo, nome, endereço, data de vencimento relógios identificadores de consumo. <br><br>Meu pai me pediu para pagar a conta de luz, com vencimento para o mesmo dia. Sai da Rua Alfândega, peguei a Rua do Gasômetro, subi a Rua General Carneiro, passei pelo Largo do Tesouro, depois pelas ruas XV e Direita, entrei no Viaduto do Chá e cheguei a Light. <br><br>Havia uma fila com maios ou menos dez pessoas, a última era uma senhora de mais ou menos 60 anos. Foi ai que teve inicio a tragicomédia. <br><br>Trazia em minha mão direita (bem fechada) a conta e o dinheiro, sobrariam apenas uns trocados. A senhora a minha frente começou a olhar pelo chão, ao seu redor e vez ou outra, me encarava, como se fosse me devorar. Olhei atrás de mim, pensando se era com outra pessoa, mas não, era comigo mesmo. Sustentei seu olhar pra ver o que ela queria. Olhando nos meus olhos disse em voz alta:<br>- "Ladrãozinho safado! Você roubou o meu dinheiro. Quero o meu dinheiro já, preciso pagar a minha conta. Vou chamar o guarda e ele vai te prender”. <br><br>Estava de fato segurando o dinheiro, pois era garoto e naquele momento não tinha bolsos. Veio o guarda civil e perguntou se eu havia tirado o dinheiro da senhora.<br><br>Mostrei meu dinheiro, a conta e convenci o guarda que não tinha tirado nada dela. Ela berrava bem alto que eu tinha roubado dela. E assim fui obrigado a partir para a ignorância, xinguei a mulher e o guarda percebeu que eu era realmente inocente e a mulher não “batia bem”.<br><br>Todas as pessoas presentes naquela fila viram que eu não havia feito nada. Aí o guarda me chamou me mandou pra casa. Mas antes de ir embora falei:<br> – “Preciso pagar a minha conta”.<br><br>A mulher, sentada em uma cadeira vociferava:<br>-“Foi ele, tenho certeza, onde esta o dinheiro da conta?”<br><br>O guarda, sem a menor cerimônia, revirou a bolsa da mulher e encontrou o dinheiro e a conta. Depois disso me olhou, deu uma piscadela, encolheu os ombros, com as duas palmas das mãos na frente, pois não havia nada mais a fazer.<br><br>Esse foi o primeiro pseudo-assalto a um banco em que participei de modo passivo.<br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>