Conta o vovô que o seu irmão Benedito era a pessoa mais esquecida que se tinha nesse mundão de Deus, como dizia na época. Moravam na fazenda Diamante, na Comarca de Getulina, cidade vizinha de Lins. Agora não recordo o nome da família dona da fazenda, só sei que um deles foi Deputado Estadual na capital de Sampa.
Uma vez por mês lá ia o vovô ou seu irmão fazerem as compras de mantimentos na cidade (coisas pequenas), porque o açúcar e o arroz eram comprados em saco de 60 kg. O café era produzido na fazenda e cada colono já tinha a sua cota para o ano todo, onde eles mesmos torravam e moíam. Quando era a vez do Benedito ir às compras, a vovó Zota já alertava o seu cunhado para não se esquecer das balas das crianças. Mas era dito e feito: era só ele apontar na porteira que a criançada saía correndo de encontro ao tio, e mais uma vez comprovavam que ele tinha esquecido das balas. Era choro por um mês. No mês seguinte a vovó desabotoou um botão de sua camisa e amarrou uma palha de milho na casa do botão, que era para ele se lembrar das balas das crianças.
Na entrada da Cidade logo no primeiro quarteirão tinha a farmácia do seu compadre Sr. Gambaci, que era parada obrigatória para colocar as conversas em dia. Perdia lá um bocado de tempo e ao sair disse para o compadre:
– Diga à comadre para colocar água no feijão que eu vou para almoçar.
-Gertrudes coloca água no feijão que o compadre Benedito vem para almoçar.
-Pode deixar meu velho.
-Engraçado não sabia que o compadre gostava tanto de “cardo” de feijão assim.
Na mercearia do Sr. Policarpo, o irmão do vovô, fez os pedidos e já sentou com os colegas em uma mesa, para uma trucada e tomar uma cachaça. O Sr. Policarpo, assim que tudo estava pronto, pediu ao seu ajudante colocar as compras no lombo do burro, e ele veio avisa-lo que já estava tudo pronto. Despediu-se dos amigos e foi até o balcão acertar as contas.
-E ai seu Policarpo é a conta de sempre ou deu diferença.
– É seu Benedito aumentou, mas é coisa pequena.
-Que mal lhe pergunte seu Benedito, o que faz essa palha amarrada ai na sua camisa.
-Danadinhos! Deve ser coisa da criançada… É que eu dei uma cochilada antes de vir para cá e eles já aprontaram, tirando a palha da camisa e jogando fora.
Final da história: mais um mês de chororô das crianças.
Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava a figura de um menino
Que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo
"Toque o berrante, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo"
Forte abraço aos amigos e a caipirada do SPMC…