História de uma noite de ano novo no Jardim São Paulo

Lembro que era quase meia-noite e ele ainda não tinha chegado!

Na mesa, as comidas, refrigerantes e cervejas aguardavam que ele chegasse para que nós, minha mãe, meu irmão e eu, comemorássemos o ano novo de 1969.

Naquele momento, ele devia estar vindo. De algum lugar de onde,com a equipe de reportagens da empresa cinematográfica em que trabalhava, ele havia ido cobrir a corrida de São Silvestre.

Estávamos ali em frente ao pequeno prédio em que morávamos, já vendo alguns amigos irem para casa para a comemoração do novo ano.

E ele, esperado sempre, demorava a chegar!

Brincávamos, corríamos, ríamos sem parar com os amigos, mas ficávamos olhando para a esquina vendo se ele já estava chegando. A cada momento, via minha mãe sair na janela e, também ansiosa, olhando para nós e para a esquina pela qual ele viria.

A noite estrelada ia avançando rumo ao ano novo e nós já podíamos ouvir os fogos que as famílias mais abastadas já estavam soltando. Vários iluminando a noite com suas cores e retumbando em nossos peitos juvenis; e também era possível avistar no alto, muito alto, balões de vários tamanhos e formas cruzando os céus.

Corri até em casa para ver as horas e faltavam apenas uns 5 minutos para meia-noite, pensei “ele não vai chegar, mais uma vez, ele que tanto esperamos, não vai chegar”.

Mas, mesmo assim, ficamos na porta quando, de repente, começamos a ouvir vozes que vinham das salas de casas iluminadas começarem a dizer: “7, 6, 5, 4, 3, 2, 1… Feliz Ano Novo!”.

Pessoas se beijavam, riam, se abraçavam, alegres, festejando o ano novo de 1969 que, no desejo de todos, fosse melhor, com mais dinheiro e saúde.

Dei um último olhar para a esquina e já fitei minha mãe na janela me chamando; fui entrar na pequena sala, minha mãe já estava pondo a mesa e meu irmão já começava a mastigar pedaços de tender e, eu também olhando pela janela, comecei também a comer alguma coisa.

Minha mãe mal disfarçava sua ansiedade, mas nos dizia que ele iria chegar, que talvez o trabalho de cobertura da São Silvestre tivesse atrasado, mas que fôssemos comendo, pois já eram meia noite e meia!

Foi quando num ímpeto, corria para a rua e dei de encontro ao pequeno táxi que ia parando em frente a nossa casa e vi, divisei seu vulto amado, descendo e pagando o motorista.

Corri em sua direção e o abracei e beijei; logo atrás, meu irmão fez o mesmo e vimos que ele trazia uma enorme melancia, fruta que adorávamos, para comer na noite de ano novo.

Sim, o ano novo seria melhor! Ele estava lá, conosco, em nossa casa! Agora sentado em seu lugar à mesa, rindo, comendo e contando sua aventura da S. Silvestre.

Nós, em nossa inocência, o fitávamos maravilhados com sua presença amorosa e pensávamos que o futuro seria sim, melhor e mais feliz, pois nosso pai estava ali, ao nosso lado e ao lado de nossa mãe.

Naquela noite, tive certeza que ele era eterno e estaria pra sempre ao nosso lado pelo tempo que viria.

Mal poderia imaginar que aquela noite de ano novo seria a última com sua presença e os anos futuros foram apenas povoados por seu vulto doce e que, ainda hoje, nas noites de ano novo, me pego imaginando ou desejando e esperando sua chegada a qualquer momento.

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