Este era o nome do cão mais especial de todos que tive – e foram vários: a Tuca – uma vira-latas, o Falcão – um dobermann, o Rocky I e o Rocky II – dois outros vira-latas. Todos muito queridos e espertos, mas, repito, o Gunter foi o mais especial deles. Vou contar o porquê.<br><br>Passávamos por muitos problemas: a saúde de meu marido e também financeiros por causa da crise "collorida" que afetou todo o país. Quando as coisas começaram a entrar nos eixos, eu caí em depressão – da grande, avassaladora. Estava me tratando e quando a médica percebeu uma pequena melhora, me sugeriu uma viagem (que, diga-se de passagem, eu não poderia fazer por causa das finanças!).<br><br>Desde já vou avisando que não acredito em coincidências, mas sim em providência divina e, por tudo que vivi, passei e superei, tenho certeza que a minha vida segue um plano de Deus que me sustenta, orienta e faz seguir adiante. Vejamos…<br><br>Em um sábado, fui passear com meus filhos no Parque do Ibirapuera e não conseguíamos vaga para estacionar. Rodamos, rodamos e "por milagre" achamos uma vaga bem do outro lado da rua, em frente ao portão do parque, onde fica a Sociedade Paulista de Cães Pastores Alemães. <br><br>Ao atravessar a rua para entrar, passamos atrás de uma dessas peruas de cabine dupla, com a caçamba cheia de filhotinhos de pastor alemão, um mais lindo que o outro, os quais tinha ido ali para tatuar o número do pedigree na orelha. Parei fascinada.<br><br>O dono dos filhotes se aproximou, viu que eu gostava de cães e veio conversar comigo. Contou que era dono do canil, mas foi logo avisando que não vendia os animais, pois os criava como passatempo, trocava com outros criadores e com eles participava de exposições.<br><br>Conversa vai, conversa vem, depois de quase uma hora, consegui convencê-lo (isso foi o que eu achei) a me vender um filhote. Mas – novo problema – eu não tinha dinheiro para isso e, depois de mais de uma hora de conversa, ele acabou me vendendo um filhote para que eu pagasse em três cheques. Inacreditável!<br><br>O Gunter estava em um canto da caçamba da perua, nos olhando com os olhos compridos, no meio de seus irmãos – todos com nomes iniciados pela letra G. E ele nos escolheu!<br><br>Voltei para casa com aquela bolinha de pelos de três meses, linda de morrer! Eu tinha insônias terríveis e não raro passava a noite inteira sem dormir. Quando isso acontecia, durante as longas madrugadas, eu me sentava na porta que dava para a garagem e o Gunter vinha correndo, me enchia de lambidas, mordidas, carinhos.<br><br>Com todo esse amor gratuito e desinteressado, cuidando dessa criatura levada e traquinas que crescia cada vez mais linda, fui me curando da depressão até que a médica se surpreendeu com a rapidez da minha recuperação e perguntou: <br>- "Você viajou como eu recomendei?".<br>E eu respondi:<br>- "Não, comprei um cachorro". <br>A médica riu muito e disse que se soubesse que eu gostava de animais, teria recomendado antes a compra de um!<br><br>O Gunter cresceu lindo, alegre, levado, amoroso, companheiro… Foi treinado pelo Leonardo na Sociedade Paulista, mas nunca quis aprender o comando de ataque e quando o instrutor chefe o incitava a atacar, ele brincava com ele. Não insisti, pois não queria um cão feroz, e já tinha visto que, por instinto natural, quando alguém ameaçava o seu território, o Gunter ficava com os pelos do pescoço eriçados e, alerta, rosnava avisando o possível "invasor" de que aquele território tinha dono.<br><br>O principal é que ele aprendeu os comandos de obediência e quando saía comigo, na rua todos se admiravam de como uma pessoa tão pequena como eu era capaz de manter um cão tão grande naquela atitude pacífica.<br><br>O Gunter era realmente grande. A cabeça dele alcançava a altura da minha cintura (o que não é grande vantagem) e, quando caminhávamos, ele diminuía suas passadas para me acompanhar, porque percebia que se andasse normalmente eu não seria capaz de acompanhá-lo!<br><br>Andamos muito pela Hípica Paulista, pela Berrini e as pessoas nos olhavam admiradas, por causa de sua beleza e o seu modo sereno e tranqüilo. Com o Mariano – meu marido – era o contrário, pois o passeio era quase uma correria porque o Gunter o "arrastava" e não obedecia aos seus comandos.<br><br>Sabia impor respeito quando necessário e, nestes 14 anos, mordeu apenas uma pessoa que, embriagada, enfiou o braço por entre as grades do portão de nossa casa para bater nele. Aliás, essa pessoa provocava diariamente o Gunter e o Rolf (um pastor belga de meu vizinho) e já tinha sido avisada verbalmente e pela placa pregada no portão, do risco de provocar um cão grande!<br><br>O Gunter adorava passear a pé e também de carro, com a cabeça para fora da janela, tomando vento. Gostava de ir para a praia e passeava vaidoso, se mostrando pela avenida costeira. Tinha uma paciência incrível com o Sansão – o Yorkshire de minha filha que o perturbava e mordia nas patas traseiras e no focinho. O Gunter olhava, baixava as orelhas e brincava com ele, talvez não acreditando que algo tão pequeno (o Sansão inteiro é menor que a cabeça do Gunter) pudesse ser tão atrevido!<br><br>Adorava uvas tipo Itália que roubava das mãos da Daniela e também pular nos meus ombros e desmanchar meu cabelo quando eu estava no quintal pendurando roupas no varal. Quando o Marco Antonio tinha seu Fusca, o Gunter viajava com ele para a praia, "enchendo" o banco traseiro e se divertiam muito porque não era preciso nem mesmo trancar o carro, pois o tamanho do "guardião" afastava qualquer pessoa mal intencionada.<br><br>São tantas as coisas boas que o Gunter nos proporcionou nesses 14 anos que eu ficaria aqui muito tempo escrevendo. Mas, já em sua meia idade, foi diagnosticada uma displasia – problema nas patas traseiras – que era tratada religiosamente. Só que, um belo dia, ele amanheceu sem movimentos nas patas traseiras, arrastando-as. Percebia-se que ele sentia dor, mas não se ouvia um lamento! Estava com um problema sério na coluna e foi feito tudo o que era possível, até que nada mais surtiu efeito e, entre os inúmeros medicamentos que tomava, o analgésico era à base de morfina.<br>A velhice é implacável com todos os seres vivos! Ia fazer 15 anos dia 15 de junho. Se foi neste sábado, 21 de maio de 2011. Foi meu remédio, meu amigo, meu companheiro, um amor diferente!<br><br>Acredito que Deus colocou essa criatura em minha vida para que eu visse, soubesse e sentisse o que é o amor incondicional, a amizade verdadeira e desinteressada, a fidelidade, o companheirismo, a lealdade. E eu vi, soube, entendi, senti!<br><br>O Gunter vai fazer muita falta. Uma falta enorme, sem medida. Durma em paz meu querido amigo. Nunca vamos esquecer você.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>