Lembro bem que na época de curso ginasial e colegial, nos fins dos anos 1960 e início de 1970, nas aulas de Geografia econômica e outras matérias, era comum os professores falarem da evolução tecnológica e de consumo na Europa, Ásia e EUA. O Brasil ainda estava naquela fase de subdesenvolvido, terceiro mundo e hoje denominado como em desenvolvimento ou emergente, para mim a mesma coisa, apenas palavras amenas, pois continuamos cada vez mais um país de montadoras de produtos de países estrangeiros, isso quando aqui não chega o material montado, principalmente dos Tigres Asiáticos, vide verso, made in China, Taiwan, Coreia, Japan, EUA e outros.
Devido ao nosso atraso tecnológico, ficávamos admirados com as informações que chegavam do exterior, onde se dizia que lá não se consertava quase nada, tudo era descartável, tudo se troca por um novo, desde eletrodomésticos ao automóvel. E nós aqui, em nossas casas, ainda usávamos ferro de passar roupa a carvão, a enceradeira era um escovão, o rádio capelinha da Semp era herança dos pais e avós. Minha mãe, que era empregada em casa de família alemã e americana no bairro do Brooklin, ficava admirada com os eletrodomésticos importados. As fraldas eram de tecidos, lavadas diariamente e penduradas nos varais para secar, depois de passadas eram guardadas bem dobradinhas e logo a seguir repetia o ciclo, hoje creio que a maioria usa as descartáveis: usou jogou fora.
Na cozinha, os talheres eram de aço inox, depois vieram os de cabos de plásticos, que queimavam no fogo, ficavam feios e iam para o lixo. O leite e refrigerantes em geral eram acondicionados em recipientes de vidro retornáveis e os condimentos, em geral, todos em vidros. Temos ainda, em casa, objetos herdados dos pais, pois a ideia era quem guardasse teria que ter e, assim, temos relógio, rádio, panelas, bacias de alumínio, talheres, nada se desperdiçava.
Lembro de minha sogra que guardava o óleo comestível usado, juntamente com cinza do carvão do ferro de passar roupa ou cinza da lenha do fogareiro para ferver a água, para tirar a sujeira da roupa encardida e ainda usava o anil para clarear a roupa, era uma pedra azul que deixava a roupa alva, com essa cinza e o óleo ela fazia o sabão, tudo se transformava em algo útil, hoje o óleo usado da fritura vai para o ralo da pia.
Onde estão os sapateiros, colocando a meia sola, costurando, a maioria dos calçados hoje são descartáveis, vão para o lixo, assim como os colchoeiros encordoando os colchões e as costureiras fazendo os acolchoados. Hoje, compra-se edredom em qualquer lugar, nosso edredom era uma colcha de retalhos feita com sobras de pano. A humanidade produz mais e mais lixo a ponto de nos últimos 50 anos produzirmos mais lixo que em toda história e isso é um crescente de escala geométrica e as soluções de forma aritmética.
Na minha infância, aqui em nosso bairro de Vila das Belezas, zona sul, na época fundão de Santo Amaro, creio que como na maioria dos bairros, não passava o lixeiro, mesmo porque não se gerava tanto lixo, a não ser os orgânicos, que era utilizado em forma de esterco ou ia para a alimentação dos animais. Quando começou a passar o caminhão de lixo usávamos latas e latões, apesar do trabalho que dava e o barulho, mas não poluía o meio ambiente. Não havia quase o plástico, nylon e fibra, a borracha era só do pneu da bicicleta ou automóvel, as garrafas eram todas em vidro e retornáveis, todas as embalagens hoje são derivadas de plástico, PVC, polietileno, altileno, polipropileno e outros “enos”. Trocou-se a indústria do vidro pela de plástico, as sacolas eram de papel e lona.
No caso dos veículos, até a década de 1970, era constituído de 90% em aço. A partir dessa data, 60% ou mais é formado por plásticos, fibras sintéticas descartáveis, creio que em breve a profissão de funileiro ficará para a história, pois troca-se a parte “avariada” por outra de plástico. A tábua de bater carne era de madeira, substituída pela placa de altileno, aquela branquinha, que logo fica toda ranhurada, manchada, feia e vai para o lixo, e mais 500 anos para decompor. E a tão propalada reciclagem desse material plástico é válida temporariamente, pois muitos que são reciclados para efeito de outro produto, um dia, irão para o lixo.
Desse tempo, dessa cultura vínhamos nós acima dos 60 anos de idade, e fomos criados para preservar e guardar, pois ninguém sabia o dia de amanhã. A partir dos anos de 1990, aproximadamente, com a abertura das exportações e a massificação de toda tecnologia, começa o consumo desesperador e desenfreado, troca-se de carro a cada três anos, quando não em menos tempo, nossos filhos e netos já não admitem nada de usado na casa, tudo é novo e paga-se a perder de vista.
Nada mais é recuperado, ferro de passar roupa, liquidificador, celular, telefone, rádio: quebrou vai para a lata do lixo, entre muitos outros aparelhos; criou-se, recentemente, a coleta do lixo eletrônico para recolher material que não se usa mais por estar fora de moda, mas é insignificante a quantidade, mas depois de recuperado de qualquer forma irá para o lixo. Quando criança, guardávamos as tampinhas de refrigerantes para montar, em uma tábua, um limpador de sapatos, a tampinha era pregada com a abertura para cima, uma do lado da outra. Fazíamos os quadrados, pipas e o rabo, rabiola, com papel de seda, hoje é tudo plástico, assim como as varetas eram de taquara, bambu, atualmente se vende já pronto em fibra de vidro, como a linha com cerol, tudo isso poluindo eternamente a natureza.
Nosso apontador de lápis era uma lâmina de Gillette, Blue Blade, que era usada até o final do corte e o lápis até virar um toquinho, substituída por lapiseira de plástico. Os jornais serviam para tudo, desde a leitura, embrulhar carne no açougue, frutas e verduras, forrar sapatos. Nessa época, tinha um papel higiênico cor-de-rosa forte, da marca tico-tico e a sua embalagem de duas a duas era de outro papel, tinha como símbolo o passarinho. Guardávamos as embalagens de alumínio dos chocolates, cigarros e balas para fazer arte como cintos e enfeites. Acendíamos o fogão à gás com palitos usados aproveitando uma chama acesa de uma boca para acender a outra e assim economizávamos o palito novo, depois vieram os isqueiros e acendedores, todos com estrutura sintética. No tanque, era comum reaproveitar prendedores ou pregadores de roupa quebrados, usávamos uma parte do prendedor e também a mola de outro prendedor e montávamos outro e, para poluir mais, estão fabricando de plásticos também.
Na vida social, fomos criados para casar e constituir família e viver até a morte com nosso cônjuge, eu pelo menos isso sigo e já há 32 anos de casamento, mas o que acontece após a década de 1990 é um crescente descarte de marido e de esposa e nessa troca de casal, um verdadeiro “swing” oficializado, e a cada troca de casal é um ou dois filhos a mais e com isso tem casais se juntando com irmãos sem saber, mas tudo bem, tudo é descartável.
Na década de 2000 em diante, estamos voltando ao passado pelo menos na reciclagem, porém, não para uso próprio e sim para aproveitamento na indústria de base como a de aço, de papel e celulose, para a transformação e criação de novos produtos e economizando assim a matéria-prima, como árvores e minerais e minérios, senão vejamos a luta de muitos países como a Agenda 21, Rio +20. Quem sabe, daqui a alguns anos, batizem o século XX ou XXI de idade do plástico, assim como tivemos a idade da pedra lascada e do bronze.
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