Quando menina, com oito, nove anos de idade, assim como a maioria dos paulistanos, as famílias precisavam ir ao centro da cidade para fazer pagamentos das contas de água, luz etc. Era uma boa ocasião para ir conhecendo as belezas da cidade, verificar as novidades em moda e comer um bom lanche. Esta “obrigação” era muito aguardada por mim, mas havia um motivo ainda mais especial para minha ansiedade. Era a chance de, mais uma vez, ver o Quartel do Corpo de Bombeiros, na Praça Clóvis Bevilácqua.
Morávamos na Vila Bertioga, Alto da Mooca e, para lá chegar, pegávamos o ônibus de no. 28, cujo ponto ficava na calçada oposta ao Quartel, bem defronte dele. Meu objetivo era sempre poder arranjar um lugar na janela, de onde eu podia observar tudo o que acontecia lá dentro. Torcia para o ônibus demorar para ficar lotado. Seria a chance de olhar por mais tempo a movimentação.
O Quartel era bastante grande, com a fachada pintada de vermelho e com o nome CORPO DE BOMBEIROS escrito no alto, em amarelo. Era um prédio de dois andares. O que eu podia ver era que na parte debaixo ficavam os carros enfileirados, prontos para a ação. Luziam seu vermelho como um sol. Muito limpos e com seus bronzes também luzindo. Sempre tudo muito em ordem e organizado.
No andar de cima havia, no piso, um buraco circular e por dentro dele passava um cano que vinha até a parte de baixo. Acho que os soldados ficavam na parte de cima, aguardando o momento de entrar em ação.
Meus olhos de criança ficavam deslumbrados, olhando para tudo, mas o meu coração se acelerava, minha respiração ficava curta e minha imaginação voava quando se ouvia o alarme para a tropa entrar em ação! Maravilha das maravilhas! A rapaziada descia rápida, escorregando pelo cano e, em poucos segundos, já estava sobre os carros, com seus uniformes impecáveis e seus capacetes, que tinham um detalhe dourado no alto.
Neste momento, os carros já estavam ligados, suas luzes acesas e a sirene alertando que iam sair. Marcha engatada e lá iam eles em disparada, porta afora, para mais uma vez cumprir seu dever de apagar incêndios ou salvar vidas, quer de pessoas como de animais. Meu coração e meu pensamento iam juntos. Eu me sentia um deles e me inflava de orgulho. Assim, ninguém se espantava quando eu dizia que, quando crescesse, seria bombeira.
Mas um dia meu sonho ruiu. Meu pai me disse que mulher não podia ingressar na corporação. A carreira era só para os homens. Que decepção!
Os anos se passaram, mas meu sentimento de admiração e orgulho pelos valorosos homens do fogo nunca se extinguiu. Continuei e continuo a admirá-los e a dar-lhes um grande valor. Meu coração se inflama de prazer quando os jornais divulgam estatísticas que os colocam sempre em primeiro lugar, na confiança que a população deposita em suas Instituições.
Quando eu tinha mais ou menos 50 anos de idade, juntamente com outras duas professoras, montamos durante um dia inteiro uma grande Feira de Informação Profissional para alunos do Ensino Médio, na Escola Estadual Dr. Alberto Comte, em Santo Amaro. Esta Feira demandou três meses de preparação, dado o grande número de Instituições, Empresas e Profissionais das mais diversas áreas que conseguimos levar, para que os jovens pudessem fazer sua escolha profissional com maior segurança. Mas, é claro, eu não deixaria faltar a Polícia Militar e, em especial, o Corpo de Bombeiros.
Fui atendida com muita presteza e, no dia da abertura da Feira lá estava a postos, no pátio da escola, uma viatura da Gloriosa Guarnição, reluzindo o seu vermelho e os seus bronzes. De longe eu observava os alunos rodearem a viatura e pedirem informações sobre a carreira e o trabalho. Eles faziam demonstrações, inclusive do funcionamento da viatura e equipamentos, além de informar as condições para seguir a carreira. Naquele ano, as mulheres já começavam a integrar a carreira militar.
Escrevo esta crônica para o São Paulo Minha Cidade porque não haveria melhor lugar para prestar uma homenagem a esta Valorosa Corporação. Quero dizer-lhes que continuo a ser sua orgulhosa admiradora e, quando lhes dou passagem no trânsito, meu coração e meu sonho de criança ainda saem em disparada junto com eles. Continuo sendo bombeira.
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