Gente que vive na rua

Moradores de rua, mendigos, andarilhos, o nome não importa. Devem existir às centenas nesta cidade enorme. No espaço de nove km entre a minha casa e o meu trabalho conheço três, que vejo diariamente. Cada um tem o seu estilo.

1) No canteiro central da Avenida Pedroso de Morais, no Alto de Pinheiros, está o já famoso Raimundo Sobrinho, o "Condicionado", que passa o tempo sentado escrevendo seus pensamentos. É fixo, está naquele lugar há dezesseis anos e não sai dali para nada. Já foram feitas reportagens sobre ele em alguns jornais. Não aceita dinheiro nem comida pronta. Ele próprio cozinha o arroz cru que ganha. Aceita lápis e papel para seus escritos.

2) Na Vila Nova Conceição, na Praça Pereira Coutinho, fica o Manoel. Sujo e maltrapilho, ele faz da praça o seu "lar", mas pode ser visto caminhando pelas ruas do bairro. Deixa os seus pertences na praça enquanto caminha. Não bebe. Junta as bitucas que encontra e "fabrica" seus próprios cigarros, enrolando o fumo coletado em um pedaço de papel. Tem uma Bíblia surrada que às vezes lê. Certa vez foi levado pela Saúde Pública, onde teve o cabelo cortado, tomou banho e ganhou roupas limpas. Voltou para a praça. Não tem nenhum tipo de problema mental. Ele mesmo diz: "Moro na rua porque não tenho outro lugar para morar".

3) No Alto de Pinheiros, próximo ao Cemitério da Lapa, existe um senhor igualmente maltrapilho que faz mais o gênero andarilho. Anda com uma sacolinha de supermercado catando latas, bitucas e tudo o que para ele possa ter alguma utilidade. Vez ou outra tem a companhia de uma cachorrinha viralata, bege, que deixa a sua casa (ela tem casa) para acompanhá-lo. Meio esfomeada, pois não deve ser adequadamente alimentada em casa, certa vez aceitou algum petisco desse mendigo e a partir desse dia passou a segui-lo pelas ruas. Às vezes pode ser vista em casa, descansando das suas andanças. Como não sei o nome deles, me refiro à dupla como "O Mendigo e a Beginha". Uma vez dei a ele dois pares de tênis velhos. No dia seguinte estava com o mesmo sapato quase sem sola. Deve ter negociado os tênis com algum colega de infortúnio, em troca de dinheiro para a cachaça.

Estão já tão habituados a essa situação que dificilmente suportariam viver uma vida normal, trabalhando, pagando contas e Imposto de Renda. Estão fora de todas as estatísticas. Para a sociedade é como se não existissem.

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