Gaúchos paulistanos

Em 1983, tendo trabalhado na campanha que elegeu Montoro, fui conduzido a Gerente de Comunicação da Cesp, pelo meu amigo Jorge da Cunha Lima. Os primeiros meses foram difíceis. Eu vinha da iniciativa privada, trabalhando em grandes agencias, para um ambiente contaminado e ocupado por militares, restos do período ditatorial.<br><br>Montoro confiou ao Professor Goldemberg a democratização do setor elétrico. Maria Tereza Jorge, fervorosa preservacionista, era a Gerente do Departamento de Meio Ambiente e Recursos Naturais. Logo me liguei a este núcleo. Junto à equipe do departamento, organizei uma grande exposição no amplo hall do edifício Center Três. Levamos ao público mais de 10000 mudas de árvores nativas da Mantiqueira para distribuição aos visitantes e muitos aquários com peixes “vivos” da bacia do Tietê. Editamos ainda a primeira coletânea de textos jurídicos sobre o meio ambiente.<br><br>Fiquei amigo dos gaúchos e comprei uma briga com o presidente que não apoiava meu projeto de renovar o “house organ” da empresa e com sumário fechamento de unidades gráficas e tipográficas, espalhadas pelo Estado. Fui desligado da Cesp e por indicação de Mauro Montorin fui trabalhar na Almap.<br><br>Deste período resultou uma longa e verdadeira convivência e amizade com os galhos da Cesp. Curiosamente aglutinados, em torno de um nordestino que adquiriu cultura gauchesca sem nunca perder seu acentuado sotaque nordestino. Professor de Escola de Santa Maria formou todos os meus amigos. Comunista clássico como Oscar Niemeyer, fala sempre alto com linguajar livre e apesar das aparências é um ser alegre, cordial e delicado. Jesuino casou-se várias vezes e teve vários filhos, durante anos trabalhou na Hidroservice do velho Maksoud para onde atraiu seus alunos e conterrâneos gaúchos.<br><br>Miguel Kosma era o líder do grupo. Foi militante estudantil, tendo disputado com Serra a presidência da UNE, casado em primeiras núpcias com Kaka, teve dois filhos, separou-se e casou-se com Fernanda sua linda secretária. Foi vice-presidente da Cesp, Secretário da reforma agrária do Montoro e presidente do Metrô.<br><br>Gerson Kosma, irmão mais novo de Miguel, também se casou duas vezes, sendo a segunda com a secretária. Tem quatro filhos, Roberto Santana ainda estudante em Porto Alegre, teve um filho com uma prostituta. Vindo para São Paulo casou-se com Sonia com quem teve dois filhos, depois com Marli com mais um filho e por último, novamente, com outra Sonia companheira de Cesp. Atualmente mora em Floripa.<br><br>Milton / Bruxo o único sempre fiel a sua linda conterrânea e esposa com a qual teve três filhos homens, todos apaixonados pelo mar e seus ofícios. Jalcione tipo físico dos índios dos pampas. Teve vários casamentos e filhos, morou no Rio e em Paris, gosta de mostrar seus conhecimentos de francês. Fernando Bidegain, gaúcho de fronteira, como todos os demais estudou agronomia, formando-se engenheiro. De origem catalã era filho de um padeiro.<br><br>O mais gaúcho da turma que nunca perdeu o sotaque dos pampas. De baixa estatura, sempre carrancudo, escondendo seu ótimo humor e sua critica posição diante do mundo. Homem bravo e conservador, escrevia seus relatórios ambientais com caprichada caligrafia, ilustrando seus trabalhos com desenhos próprios.<br><br>Estes seis personagens companheiros inseparáveis estavam sempre juntos. Mantinha um bar exclusivo, o Bebedour, no qual por diversas vezes preparei ótimos banquetes. Além disso, a cada sexta-feira, reuniam-se em diversas churrascarias de gaúchos, para muita conversa alegre e descompromissada, muitos tragos de uísque, vodka, cerveja e vinho e um pouco de carne. O grupo recebia adesões sempre fixas de inúmeros amigos, eu dentre eles e mais Gabriel, Ivo, Biela, Argemiro, Nicolau, Malu, Zé Aníbal, Maria Tereza, Goldemberg, e muitos outros.<br><br>Todo o grupo sempre prezou muito a família, mulheres e filhos e curtiam reuniões em suas casas para churrasco que varavam a noite. Eram “assadores”: Santana, Bidegain e Bruxo os demais sempre palpitavam.<br><br>São inesquecíveis as tardes na casa de Santana em Interlagos e depois na Granja Viana, na casa de Miguel no Pacaembu onde para escândalo de Bidega, Miguel gostava de ver assado um bom peixe. Os churrascos a beira da piscina em Atibaia são inesquecíveis. Anualmente no mês de setembro Bidegain abria sua casa, sua radiola, e sua churrasqueira para festejar seu aniversário e a data magna da revolução Farroupilha. Todos se pilhavam, com botas e bombachas, “guanachas” portando adagas e revólveres e se esbaldavam dançando a noite toda.<br><br>Ao som das gaitas dos pagos. Muita carne, muita bebida, muito churrasco e os magníficos doces gaúchos, nos quais a Gracinha era mestra. Não podia faltar o arroz de carreteiro, no qual Bidega era o mestre e eu seu ajudante. O colorido arroz preparado em enorme panela de ferro usava banha de porco, cebola roxa, pimentões verdes, amarelos e vermelhos (as cores da bandeira gaúcha) tomate, linguiça picadinha e aparas do churrasco coberto sempre com ovo cozido salsinha e alho tudo micro picado por mim e cozido na própria churrasqueira. Estes encontros aconteceram na casa do Bruxo na Vila Mariana, no sitio de Zé Aníbal em Ibiúna e na casa de Gula. <br><br>Socialistas/comunistas, grandes apreciadores de mulheres, pais carinhosos e grandes beberrões e comilões. Assim era o grupo de gaúchos verdadeiramente paulistanos de adoção. Sempre muito alegres, sempre atentos aos acontecimentos do país, sempre atuando politicamente com ética e ilibada honestidade.<br><br>Com o correr dos anos a “torna” foi se dispersando, alguns passando para outros mundos. Posso assegurar que quem conviveu com o grupo de idealistas, jamais esquece o respeito que mantinham entre si e o imenso amor pelo Brasil, pelo Rio Grande e por São Paulo.<br><br>São amigos que nunca se esquecem, estão vivos em nossa memória encantando nossos sonhos.<br><br><br>E-mail: [email protected]