A velhinha e o Hell's Angel

Aconteceu há cerca de 20 anos.

Naquele tempo eu morava na Vila Zelina e trabalhava na Rua Bela Cintra, pertinho da Paulista. Deslocava-me pela cidade de condução. Uma das alternativas para voltar para casa no final do dia era pegar, na Consolação, um ônibus que ia até a Estação da Luz. Lá, pegava o ônibus com destino ao Parque São Lucas, que me deixava a poucos quarteirões de casa.

Esse ônibus descia a Avenida Angélica. Em um dos pontos subiram várias velhinhas. Elas geraram uma pequena confusão, porque haviam entrado pela porta de trás e se apressaram em querer corrigir o erro.

Explico: naquele tempo entrava-se no ônibus pela porta de trás e descia-se pela porta da frente. Os idosos isentos do pagamento da passagem tinham o costume de subir direto pela porta da frente, para não terem a roleta (eu chamo de roleta, outros chamam de catraca) a se interpor entre eles e a porta de saída.

Bem, o cobrador tranquilizou-as dizendo que podiam se ajeitar ali mesmo, que poderiam sair pela porta traseira, e elas se aquietaram, sentando aos pares, exceto uma que ficou sem companhia. Pelos trechos de conversa que captei, eram judias, esse povo tem uma presença forte em Higienópolis, pelo que sei.

No próximo ponto sobe um cara "suspeito". O cara parecia um “Hell's Angel”, alto, gordo, musculoso, vestindo colete de couro, botas, cinturão de caveira, tatuagens assustadoras. Tipo do cara com o qual nós, "normais", evitaríamos mexer (já havia naquele tempo casos em que o pessoal de certas "tribos" aprontava casos de agressão por aí).

Bem, o Hell's Angel sentou-se na parte de trás do ônibus… Bem do lado da velhinha que havia ficado sozinha. E começou a puxar conversa com ela, não entendi direito o que falou, mas era algum tipo de brincadeira. A velhinha respondeu algo, assustada, tentando encerrar o papo, e o cara continuou insistido.

Naquela altura eu passei pela roleta e fui para a parte da frente do ônibus (sim, eu estava com medo do cara e, sim, eu deveria ter ficado para apoiar a velhinha caso necessário, e sim, eu fui um covarde). Sentei lá na frente e me desliguei do caso.

O trânsito já não era bom mesmo naquele tempo e o ônibus levava uns bons trinta, trinta e cinco minutos para descer a Angélica. Mais ou menos na metade deste tempo eu arrisquei uma olhada para trás, para ver se o Hell's Angel havia deixado a velhinha em paz. Não havia.

Na verdade, eles estavam no maior papo! A velhinha estava contando algo para o Hell's Angel, que ouvia atentamente, de vez em quando expressando alguma opinião, às vezes com um sorriso, às vezes com uma cara assim como quem diz "Puxa vida, que coisa triste".

Em determinado ponto a velhinha puxou a manga comprida da blusa que estava usando e mostrou para o moço os números marcados no braço. Coisa de quem passou por campo de concentração. Em seguida, ela abriu a bolsa e mostrou uma foto para o cara, e chorou brevemente, enquanto o Hell's Angel olhava a foto, fazia um elogio, e envolvia os ombros dela com seu enorme braço tatuado.

Logo chegou o ponto dela, a velhinha guardou a foto na bolsa, o rapaz se levantou para ela sair e se despediram com um beijo no rosto.

Isso é São Paulo!

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