Futebol Varzeano: da alegria à tragédia

No final da década de 40, com 15 para 16 anos, eu jogava futebol aos domingos pela manhã no Tricolor FC da Vila Nova Conceição. Certo domingo, ao levantar, chovia muito e o jogo era na Penha. Decidi não ir. No mesmo dia o famoso time do General Couto Magalhães FC também tinha compromisso futebolístico na Zona Norte, só que no período da tarde. Como sempre acontecia naquela época, quando o jogo era em campo adversário, a grande maioria dos jogadores e torcedores eram conduzidos na carroceria de caminhões. Poucos conseguiam caronas em automóveis.

A chuva havia amainado. Chovia esparsamente, com pequena intensidade. Logo depois das 13h o caminhão com jogadores e torcedores partiu da sede do clube, próximo ao nº 1000 da Av. Santo Amaro, rumo ao local do jogo. Aquele 1º quilômetro do percurso transcorreu alegre e feliz. Alguns cantarolando, outros comentando sobre mais uma provável jornada vitoriosa que se aproximava. O time era bom demais. Dificilmente perdia. A Av. Santo Amaro iniciava-se quando terminava a Av. Brigadeiro Luis Antônio. Não havia na época o túnel sob a Praça D. Gastão Liberal Pinto.

Quando o caminhão transportando os alegres jogadores e torcedores do Couto Magalhães fazia a curva para adentrar a Av. Brigadeiro Luis Antônio (provavelmente aberta mais do que o necessário), a terrível TRAGÉDIA. Chocou-se violentamente, em sua lateral esquerda, com outro caminhão que vinha em sentido contrário. Quatro mortos (um jogador – Zé Luis e três torcedores – Tavinho, Alfredo e outro que não lembro do nome). Vários feridos, alguns gravemente como o Pereirinha, que jogava no 2º quadro e teve o seu abdome aberto em quase toda extensão.

A água da chuva, que ainda escorria pela guia da calçada, deixou de ser transparente por algum tempo para ser tingida pelo sangue dos acidentados. O trauma causado pela terrível tragédia não permitiu que o poderoso esquadrão do General Couto Magalhães, várias vezes Campeão Varzeano, voltasse a jogar. Muitos moradores dos bairros de Vila Nova Conceição, Itaim Bibi e Vila Olímpia ficaram consternados, pela admiração que tinham pelo clube. O tempo foi passando, a poeira lentamente foi baixando, até que diretores e jogadores do clube decidiram pela volta às atividades.

Depois de quase um ano ausente, o clube ressurgiu para continuar a sua gloriosa e vitoriosa história. Pela manhã jogava o "EXTRA", correspondente hoje aos juniores, com jogadores entre 17 e 20 anos e à tarde, o time principal. Aos 17 anos ingressei no "EXTRA", aos 18 passei para o 2º quadro do principal e aos 19 parei de jogar para tentar (sem êxito) a carreira médica, acabando de vez por assumir o controle da extinta Papelaria Martim Francisco que, por 47 anos ininterruptos, atendeu gerações!