1973. Ditadura a todo vapor, sob o comando do General Garrastazu Médici. Reitor da USP Miguel Reale, Diretor da Faculdade de Direito Prof. Pinto Antunes ( José P. Antunes), secretariado pela Dra. Drinadir Coelho. A inteligência, infiltrada no movimento estudantil, verificou que uma das maneiras de neutralizar a influência dos acadêmicos de Direito era confiná-los no campus da Cidade Universitária, onde seria, com certeza, mais fácil, manter todos sob controle.
Daí a decisão de transferir a Faculdade de Direito, do Largo São Francisco para a Cidade Universitária, situada na zona oeste da capital, bairro do Butantã, marcando-se a data de 30 de outubro para o festivo lançamento da pedra fundamental do prédio.
No Largo, a notícia soou rapidamente. Luiz Antonio Alves de Souza, presidente do XI de Agosto, eleito pelo Movimento 23 de Junho, que, aliás, compareceu à solenidade de lançamento da pedra, mais preocupado com as festividades do 70° aniversário da entidade, se limitou a conduzir pesquisa entre os alunos sobre a decisão, não tendo tomado qualquer atitude que pudesse manifestar o descontentamento reinante nas Arcadas.
Coube à oposição, representada por integrantes do PRA ( Partido de Representação Acadêmica ), mais precisamente a Caio Luiz de Carvalho, Luiz Eduardo Gotilla, José Renato Teixeira, Fernando Assumpção Galvão e Walter Lapíetra, sob a coordenação do Caio Pompeu de Toledo, antigo aluno, a iniciativa da implementação do furto da pedra fundamental.
Inicialmente, designado para horas mortas da noite, o furto se concretizou, no início da tarde de 30 de outubro, num local ermo da Cidade Universitária, após findas as festividades do enterramento de uma caixa de cobre, contendo no seu interior pergaminho assinado pelos presentes, moedas da época e jornais do dia.
O apressamento da operação foi decidido por Gotilla e Zé Renato que foram ao local para traçar o plano do resgate noturno e, diante da total ausência de vigilância, se sentiram atraídos para completar o apossamento naquele exato momento sem perda de tempo, aproveitando ainda o estado de novo do cimento que cobria a caixa.
Com valoroso troféu nas mãos os acadêmicos se apressaram em enterrá-lo bem ao lado da Tribuna Livre, debaixo de uma lápide com a inscrição ditada por Caio Pompeu "Quantas forem lançadas, tantas serão arrancadas 30- X-1973".
A imprensa se fez presente no Largo e difundiu o fato por mais de uma semana, culminando, inclusive, com festividades do sétimo dia, estas a cargo dos demais grupos que não lograram chegar antes da turma da PRA.
O assunto da transferência da Faculdade prorrogou até 1976, quando no dia 11 de agosto, na noite em que tinham início os festejos do sesquicentenário da fundação dos cursos jurídicos, grupo de antigos alunos, sob a liderança de Paulo Afonso Lucas e do autor destas linhas, adentrou o Pátio das Arcadas em cavalgada para marcar definitivamente o que se chamou de "Dia do Fico". Conseguimos três cavalos de raça, um deles branco, sobre o qual me encontrava vestido de Pedro Iº. Após a entrada do Governador Paulo Egidio Martins, sob os acordes da marcha batida por parte da Banda da Policia Militar, o cortejo adentrou o prédio da Faculdade em direção ao pátio, onde li manifesto contrário à mudança para o campus da USP, terminando com grito de "ficamos!" que foi repetido pelos presentes por mais de dez minutos, interrompendo a cerimônia que se realizava no salão nobre.