De Cachorros e Carteiradas

Rua Jorge Augusto, Penha, década de 1950. "Seu" Manoel era um dos mais antigos moradores, estava lá desde as primeiras décadas do século XX. Como bom português, era dono de venda, apegado à família e tinha uma paixão: os cachorros. Era um entra-e-sai ininterrupto de vira-latas do quintal para a rua, naqueles tempos de muros baixos e portões escancarados. Entre os membros caninos da família, o preferido do velho Manoel era o Saringa. Magro, desengonçado, pulguento; talvez o cachorro mais feio que já latiu neste mundo. Cruzamento de cruz-credo com Deus-me-livre. Dissimulado, o bicho fingia dormir para meter os dentes nos calcanhares do primeiro incauto que lhe passasse ao alcance. O coração tem razões que a razão desconhece.
Dia de feira – e a feira do bairro acontecia na própria rua – o Saringa desaparecia e, algum tempo depois, voltava com os frutos de alguma "caçada": fieira de lingüiça, naco de toucinho, salsicha, salame. Um dia teve a pachorra de aparecer com uma peça inteira de mussarela. Os filhos do "Seu" Manoel não tiveram dúvidas: deram a parte mordida ao "caçador" e se fartaram com o resto do queijo. Achado – pelo Saringa – não é roubado.
Certo dia, o Saringa sumiu de vez. Logo correu a notícia, para desespero do "Seu" Manoel: a carrocinha levou o Saringa!
Mário, o filho mais velho, se prontificou a resolver o problema. Expedicionário, vestiu sua melhor farda, as medalhas ganhas nos combates em Bolonha, chamou um jipe do Exército e foi direto para a o canil da Prefeitura.
Ao ver chegar aquele oficial, todo engalonado, em jipe dirigido por recruta, o funcionário que tomava conta dos animais desmanchou-se em continências e salamaleques.
_Ah, o senhor veio procurar o seu cão? E qual destes é?
E gentilmente mostrava ao militar de cara amarrada os exemplares mais bonitos, gordos, bem tratados; alguns até com pedigree. Mas a todos o expedicionário respondia com um maneio negativo da cabeça. Chegando na última cela, o Mário abriu um sorriso e apontou:
_É aquele ali, o pretinho.
O funcionário não acreditou.
_Mas o senhor tem certeza ??? É AQUELE ALI o seu cachorro ?????
O rapaz não conseguia acreditar que uma pessoa tão importante viria até ali por causa de um cachorro imprestável como aquele.
_Vamos, o que está esperando? Dê-me cá o bicho!
E lá foi o Saringa, todo pimpão, montado no jipe, deixando para trás a poeira e um pobre servidor municipal espantado com o contraste entre cachorro e dono.
Depois da morte do Saringa, "Seu" Manoel ainda teve muitos cães. Apegou-se a um chamado Serrote, que também desapareceu. Dessa vez, o truque da farda-e-jipe não deu certo: o bicho não estava na sede da carrocinha. Clima de luto na família. "Cachorro também é um ser humano", como já disse um ministro. À tardinha, todos amuados no quintal, à porta da cozinha. De repente, o Mário grita, esfuziante:
_Olha, gente !!!! Quem vem lá !!! O Serrote !!!!!
Todos se levantaram e olharam, frenéticos, em todas as direções:
_ O Serrote ???? Onde ??? Onde ???
_AQUI !!!!!! Disse o Mário, jocoso, mostrando a todos uma barra de sabão que pegou no tanque.
Nota: Circulou durante muito tempo em São Paulo uma lenda urbana, a qual dizia que a carrocinha transformava os cachorros apreendidos em sabão.