Na primeira década do século XX, meus bisavós, pais da vovó Ana, que havia nascido exatamente em 1900, viajavam para a fazenda com sua família, montados à cavalo, numa comitiva composta tropeiros que carregavam os baús de roupas, mantimentos e provisões de água em lombo de mulas, dos mateiros que conheciam profundamente os caminhos e cuidados a serem tomados, como acender fogueiras nos extremos do acampamento para evitar serem surpreendidos por indesejáveis animais como serpentes e onças, o que não as impedia de certa aproximação, aterrorizando as mulheres e crianças com seus silvos e miados no meio da noite em busca de alimentos, as quais custavam para conter o choro, consoladas pela mãe e pelas mucamas, que ajudavam no cuidado à senhora e às crianças.
Havia também o capataz, munido com seu carabinote, como era chamada sua “potente” arma, para defender a integridade do grupo.
A viagem levava muitos dias. Saindo da região dos Campos Elíseos, se dirigiam lentamente para o interior, através do caminho que atravessava o rio Anhemby – que em tupi significa Rio dos Nhambus, anos mais tarde denominado rio Tietê, que em tupi guarani significa rio verdadeiro, por ser navegável e grandemente piscoso, além de ser o único rio genuinamente paulista, pois nasce, corre e deságua em terras paulistas.
Tia Maria Augusta, a “Mariquinha”, por ser a mais velha, dominava a arte de montar, portanto não causava problemas, a do meio, “Ditinha”, que mais tarde se casaria com Irineu, filho do Coronel José Joaquim Vieira Souto, fazendeiro vizinho do meu bisavô, que se radicaria no Rio de Janeiro onde é homenageado com seu nome numa grande avenida, já havia tomado o jeito, e vovó Ana, a caçula que estava aprendendo a montar sozinha, causando certo atropelo.
Embora Pai-Vô, como chamávamos meu bisavô, falasse à vovó para soltar as rédeas para que o cavalo pudesse beber água nas margens do rio, com medo de cair, ela segurava o mais firme que podia para que ele não abaixasse a cabeça. Mesmo assim ela literalmente caiu dentro do rio, de onde foi retirada ensopada de água e lágrimas, que demoraram muito a secar!
Além de trocar de roupas, retardou a viagem para secá-las, porque o que não lhe faltavam eram meias, panos e anáguas naquelas vestimentas da época mas, sem dúvida, ela aprendeu a dar rédeas ao cavalo para beber água, pois aprendeu que ele tinha mais força do que ela.
Vencido este primeiro contratempo, no frio e garoento clima da Paulicéia, que só melhoraria após transporem a Serra do Japi, seguiam viagem pelo caminho de Sant’Ana, onde na altura do grande e antigo Colégio Santana, que ainda existe, na atual rua Voluntários da Pátria, ficava o primeiro curral de mudas das montarias, para que pudessem seguir com animais descansados, pois adiante teriam de enfrentar um caminho difícil, com grandes subidas, rumo à distante Freguesia do Ó, onde paravam para descansar .
Ali, já na nova e atual Matriz, rezavam pedindo bênçãos e proteção a Nossa Senhora da Esperança, ou da Expectação, como era conhecida, antes de prosseguirem na longa viagem rumo ao interior.
Sendo a Freguesia do Ó um dos mais antigos bairros de São Paulo, cuja história se mistura constantemente com a história da capital, sabe-se que Freguesia era uma denominação portuguesa utilizada para bairro ou distrito.
Fundada em 1580 pelo bandeirante Manuel Preto, posseiro de ampla área à margem direita do Rio Tietê, famoso por escravizar índios e punir exemplarmente escravos negros, a Freguesia do Ó, no começo da colonização, transformou-se em ponto de apoio para os exploradores de ouro das minas existentes no Pico do Jaraguá e em retiro campestre para importantes figuras do Império, tendo, numa de suas antigas casas, o primeiro local onde nosso Imperador D Pedro encontrava-se com seu amor Domitila de Castro Canto e Mello, a “marquesa de Santos”, antes de lhe comprar o amplo solar que ainda existe, na atual Rua Roberto Simonsen.
Em 1610, o próprio Manuel Preto se incumbiu de construir uma pequena capela de pau-a-pique – construção de barro, com paus trançados e sangue ou estrume de gado para dar liga endurecida à construção – para Nossa Senhora do Ó, a princípio para a oração de sua família, no atual Largo da Matriz Velha, no Sítio Jaraguá bem no topo do morro, de onde se enxergava toda a extensão da cidade até onde atualmente fica o espigão da Paulista e à distante zona Leste, onde ficava a Freguesia da Penha de França, tão antiga quanto esta.
Para obter a autorização da Santa Sé para construir essa capela – pequeno templo de um só altar – Manoel Preto doou ao Vaticano as terras onde instalou a capela, além de bens materiais, como gado e plantação, tendo como compensação assegurada, a ele e a seus filhos, a posse da igreja e a obrigatoriedade de se celebrar cinco missas anuais pela sua alma, pois o bandeirante acreditava no valor das indulgências e sua consciência pesada precisava garantir um lugar no céu, devido a tantas atrocidades que praticava contra índios e negros.
Devo, entretanto, esclarecer que a protetora da paróquia e do bairro, a chamada Nossa Senhora da Expectação, é uma inusitada e belíssima imagem de Nossa Senhora grávida, esperando seu filho com amor e confiança de mãe, por isso chamada também Nossa Senhora da Esperança, porém em virtude de serem rezadas ladainhas em latim nas rezas do terço à noite – “Stella Matutina… que o povo respondia: Óra pro Nobis, Maria Auxilium Cristianorum… Povo: Óra pro Nobis”, além das jaculatórias que sempre iniciavam com a letra Ó – “Oh! Maria, concebida sem pecado… rogai por nós que recorremos a Vós” antes de cada um dos “Pai Nosso” do terço, levaram muitos viajantes a falar: “Vou lá naquela freguesia, onde os portugueses só falam “Ó”…” acabando por rebatizar a Santa, como Nossa Senhora da Expectação do Ó, ou simplesmente Nossa Senhora do Ó e o bairro da Freguesia do Ó que, ao contrário do que aconteceu à maioria, permanece com seu nome original.
Dessa antiga Capela temos como memória, a tela pintada por Salvador Ligabue, datada de 1861 (cie), o mesmo que pintou os anjos do altar da Matriz, reproduzindo neles, o rosto das duas filhas – à qual serviu à Comunidade durante 180 anos, até 1795, quando, devido ao crescimento da população local, foi reedificada e ampliada, pelo padre João Franco da Rocha, preparando-a para tornar-se a Matriz de uma nova Paróquia – que diferentemente do que se pensa, representa a delimitação territorial formada pelo conjunto das comunidades que circundam a Matriz (a Igreja maior dessa região), incluindo a própria Matriz (Diocese), como se fosse uma empresa com filiais no mesmo bairro ou região, incluindo a maior filial – daí o nome do local ser Largo da Velha Matriz, onde permaneceria até a data fatídica da madrugada de 1896, quando um incêndio, causado por um descuido do sacristão, ao queimar um enxame de abelhas, causou a destruição total dessa igreja, salvando-se apenas a Sacristia, onde por algum tempo se rezaram as missas, enquanto era construída a nova Matriz.
Os moradores construíram a nova e atual Igreja em apenas quatro anos, cuja sagração deu-se a 27 de janeiro de 1901, quando a invocação da Igreja – é todo e qualquer templo cristão, é o conjunto de fiéis, que professam a mesma fé e que estão sujeitos aos mesmos chefes espirituais, que ensinam o caminho da verdade, a prática do bem e a palavra de Deus – originalmente Nossa Senhora da Expectação ou da Esperança, passou para Nossa Senhora do Ó, no Largo da Nova Matriz, como até hoje é chamado.
Somente a partir de 1914 com a chegada dos imigrantes europeus, como as famílias Pieroni, Zampierri, Polli, Zuani, Marchini e outras, que o comércio se instalou na região, no entorno da Matriz, onde as residências começavam a se espalhar, pois anteriormente a região dedicava-se ao plantio de cana de açúcar, o que justifica a Destilaria que ali permaneceu por muitos anos, até os anos 30 aproximadamente, fabricando a “Caninha do Ó” na Chácara do Congo, atualmente chamado Morro Grande, onde ainda existe uma pedreira, embora desativada.
Atualmente quem visita o Largo da Velha Matriz, onde existiu a velha capelinha de Manuel Preto, encontra um outro Manuel, o Mendonça, na antiga e histórica praça que conserva um agradável clima familiar e de amigos, como encontramos em cidades do interior, que se reúnem diariamente para jogar dominó, carteado e malha, um antigo jogo herdado dos portugueses, em duas quadras construídas e mantidas pelo grupo de amigos, que integram a “Associação dos Amigos da Malha da Freguesia do Ó”, responsável pela manutenção, limpeza e por esta saudável e inteligente utilização da Praça.
Este novo e empreendedor Manuel explicou que os jogos de malha começaram a ser jogados na terra, sendo melhorados depois de conseguirem a autorização para essa utilização junto à Prefeitura, que também autorizou a construção das quadras cimentadas e as mesinhas de jogos.
Arrecadando a simbólica quantia R$ 5,00 de cada amigo, para pequenas despesas como sacos de lixo, vassouras, para as bolachas da malha e a quirera, isso mesmo daquela que se dá aos pintinhos, que jogada nas duas pistas cimentadas ajudam as malhas a deslizar, sendo que nas duas cabeceiras o piso é de cacos de mármore para ficarem mais resistentes, pois ali as malhas causam maior atrito.
A pista oficial mede 40 m de extensão e é feita com terra bem batida, areia, bem lisinha, porém depende de muitos cuidados e manutenção, ao contrário destas que ficam expostas às intempéries, e que são cimentadas para facilitar a manutenção e medem 25 e 26 metros de extensão, devido ao tamanho da praça, porém o suficiente para brincar, como ele mesmo afirmou.
O grupo do dominó e do carteado se reúne diariamente, os da malha, se encontram mais nos finais de semana, dessa maneira, esses senhores aposentados saem de suas casas indo para a gostosa pracinha com ares de aconchego e de interior, com algumas casinhas coloniais que ainda permanecem no entorno, onde conversam, se distraem, contam piadas e praticam exercícios, tendo com isso melhorado a saúde de muitos deles, e outros, que mal se conheciam, se tornaram amigos.
Existe, ainda, uma pequena quadra onde é possível se jogar bocha.
Duas vezes por ano acontece o torneio de malha, com troféu, churrasco, bebidas, presença de vereador e deputado no local, com a colaboração da escola da Pracinha, ocorrendo um em março e outro no final do ano, quando em vez de troféu, o vencedor recebe uma cesta de Natal, instituída no ano passado pelo Manuel Mendonça, quando assumiu a Presidência da Associação.
Desta forma além do espírito de compartilhar, de participar, existe o aspecto da conquista do prêmio.
A Praça fica cheia de pessoas para jogar, às vezes tendo de esperar uma hora pela sua vez, apesar das duas quadras existentes.
O Jogo de Malha, trazido e jogado pelos portugueses, era jogado antigamente com lascas de pedra e até com ferraduras de cavalos.
Fácil de jogar, possui três regras principais: A 1ª derrubar o pino que permanece de pé no centro de dois círculos, um maior e outro menor, como no desenho ao lado; Derrubando a pessoa faz quatro pontos. As 2ª e 3ª regras, depende de se colocar a malha – uma bolacha de ferro polido – dentro desses círculos, sendo que entre os dois adversários, vence quem a colocar mais próxima do centro.
Eu perguntei: Por que se chama malha se a peça é de ferro?
Ele acha que seja porque elas têm de bater no pino para derrubá-lo, tem de malhar, como o termo de malhar Judas, para bater no boneco…
Além dos exercícios físico e mental usados para a estratégia do jogo, existe o fator psicológico de tentar ganhar do adversário e aprimorar a própria técnica, trazendo beneficio aos praticantes, que os impede de ficar à toa, esperando o tempo passar…
Nesse saudável grupo de amigos, até o padre da Matriz se integra, jogando malha e sendo o tesoureiro da Associação.
Outra atividade dessa incrível comunidade é a auto-ajuda entre eles, consertando pequenas coisas, como o fogão do amigo etc., o que me mostrou que não errei quando achei o Manuel com jeitinho de Faz-tudo.
De lá, citando o tempo antigo, para seguir viagem, feita no rumo do Peabiru dos indígenas, caminhava-se pela Estrada Velha, atual Av. Raimundo Pereira de Magalhães e pela Estrada de Pirituba, atual Paula Ferreira que liga a Ponte do Piqueri – que em tupi guarani Piquiry significa rio dos piquiras, peixinhos miúdos de água doce – com a Freguesia do Ó, que está comemorando 428 anos neste ano de 2008, tendo na sua Praça da Nova Matriz, além do grande Santuário católico, que são Igrejas com visitação em massa, como a Penha, a Aparecida do Norte, e a Freguesia do Ó, entre outras, um ponto de encontro de pessoas que vêm dos mais diferentes e distantes bairros, atraídos pelas famosas pizzas no Ciccarino – onde a frase do fundador colocada numa de suas paredes, marca sua eterna presença: “Le buone radici, danno sempre buoni frutti”; no Bruno, instalado ali desde 1939 pelas Famílias do Bruno Bertucci e João Siqueira, o Jango, homenageados em ruas do bairro, atualmente gerenciado pelo Rui, um dos quatro filhos do Jango: “René, Rui, João e Roberto”; pela excelente comida do Frangó, o “Frango do Ó” que atualmente também se instalou nos Jardins; pelo Chopp do Alemão, ou pela comida típica do Mercado Nordestino, etc., naquelas antigas casinhas tombadas, confraternizando-se com seus amigos enquanto desfrutam do agradável ambiente local, de onde se avista a torre de televisão da Av Paulista, cercada pela muralha de edifícios, até o Santuário da Penha na zona Leste, nos mesmos pontos onde meus bisavós podiam maravilhar-se com a bela vista do lugar!
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