Era chegada a hora da tortura para mim: a aula de português com a professora Bárbara. Eu estava na sexta série e contava com meus doze anos. Nunca tinha tirado um zero em minha vida e toda aula dela era uma chuva de zeros e negativos para a classe inteira.
_ Número um, não sabe responder? Zero, número dois, zero…
Já não deixava ninguém responder e era zero até o número 40. Sem contar os sermões que recebíamos.
Dona Bárbara Vasconcelos de Carvalho foi também escritora e publicou livros infantis e de Literatura Infantil.
Para mim ela era uma temeridade. Mas para minha irmã que estava na oitava série, ela era uma sumidade e muito admirada. Ocorre que eu conheci aquela Dona Bárbara impaciente com a ignorância da classe e minha irmã conheceu a Dona Bárbara encantada com uma turma que ela considerava muito madura. Tanto que sugeriu a leitura do livro “O Crime do Padre Amaro” aos alunos. Foi um escândalo. Os pais ficaram chocados.
Hoje avalio e compreendo que Dona Bárbara nos deu uma ótima base na língua portuguesa e era muito inteligente. Só não era paciente com o aprendizado dos alunos.
Houve um fato curioso na sala de minha irmã Roseli. Dona Bárbara pediu para ver a lição de um aluno:
– Sr. Cléber, fez a lição?
– Sim senhora, respondeu um aluno todo assustado e tenso, como muitos que assistiam à aula.
– Que é de?
E o aluno não respondia?
– Que é de? – repetiu a pergunta uma professora já se enfurecendo.
E o pobre do Cléber tremendo sem entender o queria dizer aquilo: “Quiéde” e que na verdade seria a versão correta para o popular: “Cadê”.
Certa vez houve uma prova oral de conjugação de verbos. Cada um escolhia um verbo e um tempo para seu par conjugar. Ficávamos lá na frente, próximo à mesa da professora. Eu escolhi um verbo defectivo, desses que não se conjuga em todas as pessoas. O meu parceiro obviamente errou. O coitado veio do recreio com uma picada de abelha no pescoço e segurava o local com um lenço de bolso. A dor deve ter aumentado com a minha pergunta cruel, mas de certa forma foi vingado quando a professora me perguntou:
– Dona Ângela, porque o verbo é defectivo? (Ela me chamava de Ângela por causa de meu sobrenome Angelis)
Eu não sabia explicar e devo ter levado um negativo, na certa, mas aprendi que é preciso pesquisar e não apenas decorar.
Na verdade, os zeros e negativos não passavam de blefe. Eram para nos pressionar a estudar muito. Como eu não sabia, ficava apavorada e angustiada quando ouvia minha irmã contar das suas notas altas. Minha mãe foi sorteada para ser a homenageada da minha classe bem no ano em que eu estava mal em português e nas outras matérias também, por conta do nervosismo. Acho que minha angústia era tanta que minha mãe não pode ir à festa, pois estourou uma veia de sua perna, por causa das varizes.
Acabei doente, com dor de cabeça e febre. Por sorte minha mãe me levou ao Dr. Luiz que tinha uma clínica na esquina da rua do colégio, a tal Manoel Madruga. Ele acertou no diagnóstico: “nervoso” – que hoje chamariam de stress – e assegurou à minha mãe que um cálcio para o cérebro e as férias ajudariam a resolver meu problema. Não seria necessário me levar a um neurologista, nem me tirar da escola como cogitou ela. Ainda apareceu uma amiga que ingressou no mesmo colégio e passamos a ir e voltar junto. Tudo melhorou e passei de ano sem problemas. Curiosamente não me lembro como foi o segundo semestre nas aulas de português. Nem se fui aluna dela em outros anos. Lembro apenas desses episódios citados e marcados na minha memória de estudante.
Como já comentei no texto anterior sobre a aula de música, acredito que deve haver um meio termo entre passado e presente. Nem tanta recriminação como antes, nem tanta permissividade como hoje.
De amigos que encontro, ex-alunos de Dona Bárbara, escuto reclamações, mas não esqueço do que aprendi com ela, a duras penas, claro, e do equívoco de acreditar no seu teatro. Afinal sempre fui meio tolinha e muito impressionável.
Dona Bárbara faleceu há muitos anos e lamento não tê-la conhecido direito como minha irmã que a admirava e chegou a visitá-la em seu apartamento na Av. Angélica. Sempre que passava em frente ao prédio eu pensava nela e em todas essas histórias marcantes em minha vida. E de como tudo o que se vive tem o seu peso e a sua herança.
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