Flagrado no ato

A cena é mais que clássica e já se prestou a muitos contos e mesmo piadas. O cidadão vai para a cama com a amante, no apartamento dela, e eis que o marido volta, depois de perder o avião, ou desistir da viagem. E ai, o outro fica no mato sem cachorro ou num apartamento sem saída, com uma sacadinha para o abismo, ou coisa assim.

É trágico, ou cômico, ou em dois exemplos, de Fernando Sabino e Luiz Fernando Veríssimo, tragicômico. Mas, no fim essas histórias terminam bem, o que deve ser difícil na dura realidade. Espera-se que este caso também termine numa boa, mas isto vocês vão saber no final.

Meu amigo trabalhava em publicidade, num agencia da Rua Tutoia. Tinha dinheiro e lá o seu charme e por isto a bela morena engraçou-se com ele. Ela vivia com um senhor consideravelmente mais velho, o de imediato já levanta suspeitas sobre seu caráter. E assim prosseguia o caso. Um belo dia…

Aliás, noite. Ficaram de se encontrar após o expediente dele. Mas não é de hoje que agências de propaganda não respeitam limites de horário. Ele, louco para revê-la, o outro tinha ido para o hospital, e ela estava livre. E o serviço entrando, mais e mais. Tudo urgente, para amanhã.

Passava muito da hora combinada, e não conseguia desgrudar dali. Até que, às dez horas, terminou enfim sua missão. Ela devia estar furiosa, achou melhor ir até o apartamento, que ficava na Alameda Santos, ali perto. Estacionou e entrou no velho prédio, sem complicações. Naqueles finais dos anos 60 porteiro, câmera eletrônica, tudo isso era raridade. Chegava-se, e geralmente entrava-se dar sem maiores satisfações. Bateu à porta, e a morena apareceu de baby doll. Puxou-o para dentro.

Mais tarde descansava na cama do casal, e aí, como na história clássica… A chave girou na fechadura. O dono da casa teria tido alta do hospital? Desistido do tratamento, que não era coisa grave? Não havia como escapar. Pior que na crônica de Sabino, em que havia uma sacada com persianas para se esconder, ali não havia nada. A grande vidraça nua dando para o vazio.

Para baixo da cama, se esconder no armário? Complicadas soluções. Na dúvida, aguardou o desenlace. Mas, então, graças, era só a irmã mais nova que voltava do colégio! Meu amigo suspirou de alívio. Recobrou o ânimo, e como escreveu Rubem Braga, "éramos rapazes!". Respirou fundo, e foi à luta, novamente.

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