Firmino de Proença – Uma escola para sempre

Grandes Momentos.

Prestes a completar 11 anos tive que encarar minha primeira mudança de escola e a escolhida foi a imponente E.E de 1º e 2º Grau "Prof. Antonio Firmino de Proença", no tradicional bairro da Mooca. Escola muito concorrida nos anos 80 tamanha a quantidade de professores gabaritados e que acabaram virando doutores em suas a áreas. A diretora, Sra. Helena, cuidava da mesma como se fosse sua, fazia questão que a fanfarra da escola desfilasse pelas ruas do bairro em datas importantes e sempre pregava um ensino forte, as festas de formatura contavam com tradicionais bandas da época, como o Super som T.A, os campeonatos internos, as feiras culturais e os grandes eventos que envolviam toda comunidade, as tradicionais festas juninas contavam com prendas fabulosas e o tradicional bingo era lotado.

Lembro de grandes professores como a Mariana de Português que me ensinou a fazer um resumo de livros paradidáticos como ninguém, dos debates em grupo da professora Edith de Geografia, das aulas de Matemática da professora Mirian com aquele respeito ao formalismo e linguagem matemática perfeitos, das aulas de Ciências da Rith onde dissecávamos peixes, sapos etc., das comemorações cívicas e o respeito aos hinos entoados, das aulas de Educação Moral e Cívica, Educação para o Trabalho e de Música que contribuíram muito na minha formação, das aulas de Francês e suas músicas que hoje canto para meus filhos, enfim, são tantas coisas boas que só tenho a agradecer; até as broncas da Maria Gato, uma coordenadora da época, ecoam nos meus ouvidos com ar de saudades.

Tempos de ouro do ensino público, minhas maiores amizades foram feitas lá. Minhas classes eram só de homens, característica da época, fazíamos bagunça é claro, mas respeitávamos nossos mestres e temíamos os nossos superiores, a cada mudança de aula ficávamos em pé em respeito ao professor, o avental e o sapato faziam parte de nossos uniformes e as famílias eram unidas pela valorização do ensino. Ao relatar tais fatos as lágrimas escorrem dos meus olhos, tamanha a saudade desse tempo. Meu irmão estudou lá; embora não tenha conhecido minha esposa no colégio ela e toda sua família também estudaram lá, aliás, naquela época era difícil encontrar alguém que não estudou no Firmino.

A escola era muito grande, cerca de 40 classes e 4.000 alunos, motivo até hoje de lembranças entre diversos grupos de amigos e encontros. Comecei minha vida como professor lá, nos anos 90, logo quis fazer parte da APM. Como era novo e sonhador tentei implantar um pouco da minha época de estudante revivendo as grandes festas juninas e eventos, pena que algumas pessoas boicotavam. Na sala de aula a inspiração nesses grandes mestres me ajudou e ajuda até hoje. Só tenho a agradecer minha família por ter me colocado nessa que considero a minha maior escola de vida, o sem igual Firmino de Proença. Na verdade a inspiração da minha escolha profissional tem muito a ver com esses grandes mestres e em particular a Matemática com a minha querida professora Mirian que mais tarde se tornaria minha colega de trabalho lá no Firmino e que me indicou para trabalhar no colégio particular Anglo Latino do Cambuci.

Tais coincidências fazem com que a vida tenha significado. Como nas frases de Vinícius de Moraes: "A vida é feita de encontros e desencontros". Professores, alunos, todos por um ideal. Um dia aluno, mais tarde colega de profissão e que profissão. Ser professor-educador é um dom de Deus, sabe? Pessoas escolhidas a dedo, mesmo com todas as dificuldades e desvalorização o grande mestre quando em uma aula supera tudo, a fim de fazer bem feito, tendo em vista o ser humano, aliás, quantos seres humanos nós professores já salvamos.

Costumo dizer aos meus alunos e colegas que um médico salva vidas e o professor salva a essência dessas vidas. Na frase de Charles Chaplin isso é claro: "O Sol ao nascer dá um lindo espetáculo enquanto a maior parte da plateia continua dormindo”. Meu desafio diário é ser um pouco “Charles Chaplin" e um pouco Bernardo Resende, o Bernadinho do vôlei, transformando suor em ouro, não é fácil, mas vamos caminhando.

Nas aulas de Matemática retomo os conceitos todos os instantes, tento contextualizar ao máximo e respeito cada aluno, se ficar olhando para trás as coisas não rendem, não adianta arrumar culpados pela defasagem de conteúdos anteriores, não adianta culpar a família pelo desinteresse dos jovens ou as vistas grossas dos governantes com essa nobre arte, é melhor utilizar minhas potencialidades em projetos de aprendizagem, levar tabuleiros e jogos para ensinar regras de sinais, um texto de motivação, sentar com cada grupo e ensinar medir um ângulo utilizando um transferidor, ensiná-los a jogar xadrez, recortar figuras geométricas, etc.

Ser professor é algo que vai além. É um dom. Tenho certeza que muitos desses jovens acabam se inspirando nos seus grandes professores, quem teve um grande professor sabe do que estou falando. Parece demagogia, mas sinto pena de quem não valoriza ou finge que valoriza a educação, sei que a parte financeira é importante, mas sei também que no final de cada dia deito e durmo tranquilamente com a sensação de dever cumprido. Quem sabe em algum momento da minha vida essa nobre arte seja realmente vista com outros olhos e fica um registro a quem responde por educação nesse país: "Podemos achar que enganamos os outros, mas não enganamos a nós mesmos".

Cuidado na forma de pensar em educação. Cuidado ao desvalorizar o profissional da educação. Cuidado ao declarar informações aos alunos e comunidades. Cuidado em desmerecer quem mesmo desvalorizado exerce com muita dignidade essa arte. Para terminar, gostaria de parabenizar todos os professores da rede pública, que mesmo em situações desfavoráveis seguem em frente e dignificam o ensino público desse país, não fossem por eles a situação seria catastrófica. Salve professores!

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