Chovia fino e fazia frio naquela distante manhã de inverno nos idos da década de 50, aqui na capital paulista, nos lados onde morávamos, Brooklin/Banespa.
– Vão com cuidado e fiquem sempre juntos, tchau! Tchau mãe…
Agasalhados, capas, guarda-chuvas e malas com nossos cadernos e lápis; meu irmão, juntos, íamos à escola que no Brooklin ficava. E a pé caminhávamos lado a lado.
Sempre, impreterivelmente, àquela hora, lá estava ela, que da janela de vidro, abaixada e uma tênue cortina transparente a enfeitar.
Ela, quem?
Sorrisinho quase que infantil, cabelos grisalhos, magrinha e ar alegre e ao seu lado, um pequeno gatinho, creio que da raça Angorá, pois era bem felpudo.
Morava numa pequena casinha, esquina com a rua e dos trilhos por onde passavam os bondes, cujo caminho era por nós percorrido para à escola irmos.
Ela nos acenava, como se seus netos fôssemos, e nós retribuíamos e felizes caminhávamos para a escola, como se nossa avó ela também fosse, e creio que desejando-nos boa sorte, meus queridinhos. E assim foi durante muito tempo…
Só que, naquela fria manhã de agosto, olhamos para a janela e não a vimos… só o gatinho que lá estava, como se querendo nos contar algo. E assim foi por alguns dias.
Deveria estar beirando os 85 anos, ou mais um pouquinho.
Deus a levou!
Soubemos, tempos depois, pela sua filha, que no empório de meu fazia compras, que a maior alegria dela era nos ver, como dois irmãos unidos que éramos, caminhando lado a lado e retribuindo o aceno que ela nos dava. Tinha-nos como se netos dela fôssemos, pois jamais os tivera de verdade.
Hoje, recordando, lembramos que nunca soubemos o nome dela, apenas falávamos que era a "vovózinha".
Foi uma figura singela e marcante de nossa já longínqua e outrora infância.
Lá do céu, temos certeza que ainda nos acena, com aquele sorrisinho inesquecível…
Que em paz, no paraíso descanse…
e-mail do autor: [email protected]