Não. Não são santos católicos, apesar de seus nomes remeterem essa lembrança. Trata-se de meu pai e meus tios.
O velho Fernando Arce Borges, um senhor de cenho grave, estampava em sua face uma austeridade peculiar dos "pais de antigamente", tipo "bastava um olhar e a gente já se sentia sem roupas". Mas era uma pessoa muito dada, apesar de seu silêncio mórbido (só falava o necessário e quando necessário). Tinha humor (não o senso), e era muito compenetrado em sua lida.
Trabalhou anos a fio na extinta Agromotor, assistência autorizada da Willys Overland do Brasil, lá na Rua Ana Neri, no bairro da Mooca, onde eu, sempre nas tarde de sábado, levava sua marmita e passava horas admirando os Dauphines e Gordinis que ali chagavam para suas revisões. Também os "novos" Aero Willys (os redondos) por ali estacionavam para as vistorias de praxe. Jeep's, Rural Jeep's, Pick-Up Jeep's, eram os carros mais disputados naquela época, e só perdiam para os Sincas (que eram mais caros), ou um ou outro importado, que só os mais abonados podiam comprar.
Com a revolução militar de 64, meu pai perde o seu emprego e passa a exercer atividades múltiplas (radiotécnico, mecânico de motores, instalador de antenas de TV, eletricista predial etc.). O que aparecesse, o "velho" Fernando metia a cara. E o melhor, dava conta do recado. Era muito solicitado, mais pela responsabilidade com que tratava seus trabalhos e pela garantia que conferia a seus serviços.
Foi assim até os últimos instantes de sua vida, quando um aneurisma cerebral o derrotou na sua pequena oficina na Rua Santo Antonio, quase esquina com a 13 de Maio, no dia 15 de dezembro de 1988.
O tio Rafael era um "velho maluco", mas gente boa. Enquanto meu pai me iniciava na arte mecânica e elétrica, ele se encarregava do meu aprendizado de "conhecimentos gerais da vida". Com ele aprendi a dirigir, decorei marcas e modelos dos automóveis que passavam por nossa rua, a Santo Antonio, lá no Bixiga. Era o avesso de meu pai. Enquanto um era calado, o outro falava até pelos cotovelos. Era uma figura pitoresca em nossa rua e conhecia quase todos que por ali passavam. Meio fofoqueiro, sabia da vida de todo mundo. Onde moravam, seus trabalhos, com quem eram casados (homens e mulheres). Foi casado com tia Faustina e não teve filhos. Agregou os delas. Muito solícito, não havia ninguém como ele para passar uma informação a alguém que por ali passasse, acerca de uma rua, praça ou avenida, por mais distante que fosse. A informação era como um GPS, com detalhes do lugar, esquinas e travessas, e quem as recebia dificilmente se perdia.
Sempre envergado em seu surrado terno e gravata, um chapéu Ramenzzoni para esconder a calvice e protegê-la do sol, sapatos Scattamachia de solado e salto de borracha, o velho tio Rafael foi parte cultural da Rua Santo Antonio por anos a fio. Deixou-nos, alguns anos depois da morte de meu pai, senil, prostrado no leito de um asilo qualquer de São Paulo.
Tio Santiago, mais conhecido como "tio Anão" (não sei por que, se ele não era de baixa estatura), talvez por ser o caçula dos irmãos, era por mim alcunhado como "o sombra". Sutil, silencioso, caladão, mas muito estimado. Era contraventor do jogo do bicho e muitas vezes foi preso em função de sua ilícita atividade. Coisas da vida. Naquela época, os políticos já eram desonestos e corruptos e não iam presos. Um simples agenciador de "loterias zootécnica" amargava as grades de uma especializada circunscricional da vida, por causa de míseros "réis". Ah, quantas pules meu tio teve de engolir para livrar os flagrantes. Não sei se teve algum tipo de indigestão.
Eu igualmente gostava de meu "tio Anão" e do tio Rafael. Eram muito bons para comigo e com eles muito aprendi da vida, e faço desse aprendizado um roteiro de experiências que hoje repasso para meus filhos e, seguramente, meus filhos passarão para meus netos.
O que escrevi acerca destes três personagens, que não são fictícios, são pequenos trechos de uma vida pitoresca e que muito me marcou em minha infância e adolescência. Tivesse eu de declinar a vida de cada um deles, esta página seria pequena demais, mesmo com os recursos da mídia moderna. Portanto, fica aqui esse registro, que é mais uma singela homenagem de um filho e sobrinho saudoso de seus três heróis, e que nesse momento devem estar, os três, em algum lugar do além, reunidos e velando por minha caminhada aqui na Terra, até o dia em que eu vá, finalmente, encontrar-me com eles.
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