Quando criança, muitas vezes as férias escolares do mês de junho eram desfrutadas na casa das minhas tias Maria e Zule, que moravam no bairro da Ponte Rasa.
Naquele tempo não havia quase nada, a não ser muita vegetação com algumas moradias, uma capela localizada bem no alto de um morro e uma escola cercada por alguns eucaliptos. As ruas eram de terra e o acesso para a região se fazia de ônibus, que circulava pela estrada de São Miguel Paulista.
A viagem começava no bairro da Penha de França, na Praça Micaela Vieira, e, assim que eu entrava no ônibus, procurava a janela, pois adorava ficar olhando pelo vidro e apreciar a paisagem que a antiga estrada me proporcionava.
Lembro-me de que logo depois de passar pela conhecida curva da morte, minha tia dava o sinal e aí começava a segunda parte da viagem, agora íamos a pé subindo as ruas de terra do lugarejo, uma verdadeira maratona.
Ainda me lembro do cheirinho de café e do galo cantando no fundo do quintal, da cerração cobrindo a vegetação dos pequenos vales e morros que encantavam meus olhos, tudo isso anunciava o tão esperado dia.
Logo após o gostoso café da manhã que minha tia preparava e assim que o sol iluminava as pequenas matas da redondeza, lá íamos nós, eu e meus primos, explorar a região.
O bairro que ainda estava se formando tinha muito verde e alguns morros que adorávamos subir e descer correndo com “braços de avião”, sentido o vento passar bem juntinho a nossa pele e esvoaçar nossos cabelos.
A sensação de liberdade era enorme, podíamos gritar e chamar pelos possíveis anjos que talvez quisessem participar das nossas brincadeiras, e depois ficar olhando para o imenso céu azul ouvindo as aves que nos saudavam com uma linda sinfonia.
Todo o dia tinha um lugar diferente para explorar e nada ficava sem nossas pegadas.
Hora do almoço, outra delícia. A comida era simples, mas aquele sabor cheio de carinho ainda me dá água na boca. A limonada era feita com limão cravo e as verduras bem fresquinhas colhidas na hora, sem falar na galinhada e na gostosa carne de porco que também eram criados pelas saudosas tias.
À tarde, íamos tomar café na casa da minha tia Carmela, que cuidadosamente preparava uma travessa de "travesseirinhos", feitos de farinha, açúcar e erva doce, mais um grande bule de chá e, para o jantar, era a vez do pastelão com queijo branco, tomate, azeitona e orégano. Tudo isso para compensar a energia que gastávamos durante o dia.
Aos domingos, assistíamos à missa na única igreja que havia no bairro. Durante a semana, participava também da novena de Nossa Senhora, ela ficava na casa de uma família por nove dias, e no ultimo, depois da reza, saboreávamos um lanchinho que dava força para levá-la para outra casa. Em uma dessas peregrinações caí em um buraco, pois a rua era de terra e não havia luz. Guiávamos-nos pela luz da lua e às vezes por um uma lanterna. Como andávamos em grupo, logo deram a minha falta e voltaram para me pegar, quando eu já estava aos gritos e chorava muito.
Hoje tudo está diferente, o bairro cresceu! Não existem mais morros e vales verdes para desbravar e nem o gorjeio dos pássaros para nos saudar. Destas férias de infância, ficaram apenas as doces lembranças, que agora fazem parte das histórias que carinhosamente conto para meus netos.
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