Desesperada por um dinheirinho, arranjei um emprego numa loja de tecidos na Rua Vergueiro. Eu tinha uns dezoito anos, fazia cursinho de manhã e me lembro que, na loja, o horário era das 10h às 4h da tarde. Ideal.
O dono da loja era um turco de bigodes que aparecia de vez em quando. Me ofereceu o emprego na condição de que não me registraria. Aceitei sem saber o que isso significava; incrível como eu era inocente da vida.
Quem realmente tomava conta da tal loja (que hoje ainda existe, numa esquina entre as estações Santa Cruz e Vila Mariana) era um sujeitinho metido a gerente, muito formal, de terno e gravata, que fazia questão de chamar todos os empregados de “senhor” e “senhora”, mesmo a mim, com apenas dezoito aninhos. Eu achava aquilo muito engraçado.
Como eram pesados os rolos de tecidos, e quantas vezes cortei o tecido torto ou deixei cair o rolo no pé de algum freguês! Tive também minha quota de fregueses que me esnobavam, e perguntavam por que eu trabalhava numa loja de tecidos se estava quase na faculdade e falava tão bem! Acho que, naquela época, não era costume estudantes trabalharem como balconistas.
Os tecidos me encantavam, como até hoje. Que variedade, quantas cores, estampas e texturas! Até hoje tenho saudade do cheiro dos tecidos novinhos sendo desenrolados.
Fiquei ali pouco tempo, acho que pouco mais de um mês; nem me lembro a razão de ter saído, mas me lembro bem da decepção ao receber o meu salário. Como eu não tinha sido registrada, o turco pagou só o que quis, e colocou na minha mão um envelope com 21 cruzeiros. Não havia como reclamar, eu não existia. Naquela época, meu namorado estava na Europa e eu queria muito comprar um presente para o aniversário dele. Com os 21 cruzeiros, fruto do trabalho de todo um mês e mais um pouco, consegui comprar um livro e colocar no correio. Nada mais.
Meu próximo emprego foi no centro da cidade, num prédio antigo onde funcionava um cartório de protestos.
Naqueles dias pré-computador, fazíamos tudo a mão, preenchendo montanhas de fichas com nomes de infelizes que já não tinham crédito na praça. Desta vez, o horário era das 4h da tarde às 10h da noite, com uma paradinha para um café corrido com um sanduíche, ali mesmo, em meio às escuras prateleiras empoeiradas. Junto comigo, um grupo de colegas, dos quais ainda me lembro vagamente – uns rapazinhos magros e mal vestidos, uma garota chamada Dasy que só falava em sexo e uma mulher um pouco mais velha, de cabelos mal pintados de vermelho vivo.
No entanto, tudo aquilo tinha o seu charme. A gente ia em grupo para o ponto do ônibus, ali perto da praça da República, às 10h da noite, rindo e conversando (nada de metrô), e eu me sentia viva e feliz.
Depois disso, fui ser professora primária por um ano na Escola Americana de Mirandópolis. Fui uma professorinha dedicada e muito atenciosa, adorava os meus aluninhos de 8 anos e eles me adoravam também. No dia das professoras, fui eu quem ganhou o maior número de presentes; jamais me esquecerei do rostinho das crianças me entregando seus pacotinhos, com tanta coisa bonita dentro. Quase não consegui levar tudo pra casa. Só de pensar que todos eles são, hoje, adultos, casados, onde estarão?
Olhando para trás, vejo que havia felicidade em tudo aquilo, mesmo que o dinheiro fosse tão pouco e que houvesse injustiça, como na loja de tecidos. A felicidade, a gente só compreende depois.
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