Feijoada memorável

São Paulo, 1968, eu já casado, já tinha vivenciado com minha esposa o aborto daquele que seria meu primeiro filho, morando naquela altura dos acontecimentos na Rua Maria José, 27, depois de ter amargado um longo período de desemprego, havia me empregado numa loja de tapetes e forrações na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, a Preca Tapetes, de propriedade dos mesmos donos da loja Móveis Tabacow, que ficava na Rua da Consolação.

Na Rua Maria José havia, ou melhor, ainda há uma feira livre semanal. Na porta da casa onde eu morava ficavam as bancas de peixe que, com o passar do tempo, eu consegui fazer camaradagem e dessa franqueza de tratamento fui agraciado com a indicação e compra, com preços mais convidativos, de peixes e frutos do mar para minhas investidas culinárias.

A Preca Tapetes ficava no quarteirão da Brigadeiro que terminava na Avenida Paulista. Assim sendo eu me dava ao luxo de almoçar em casa já que a Cida havia se desligado do emprego e começava a treinar para ser uma boa dona de casa, como de fato se transformou posteriormente.

Um belo dia, por volta das 13 horas, dia de feira, chego em casa para saciar minha fome. Encontro minha esposa com um sorriso altivo no semblante e de imediato me diz que tinha preparado uma surpresa para o almoço.

Na cozinha reparo que as panelas do fogão, que deveriam estar escondendo a tal surpresa, estavam devidamente tampadas, não permitindo qualquer incursão mais ousada para tentar desvendar o mistério.

A mesa devidamente posta nos convidava a tomar assento e assim procedemos. Então dona Cida, com o maior dos sorrisos, me apresentou o prato surpresa.

Uma suculenta e vistosa feijoada. Perguntada como havia preparado o acepipe se eu não havia comprado qualquer um dos pertences do prato, ela me respondeu que eles haviam sido adquiridos com pequenas economias nas compras de rotina. Fiquei sabendo, inclusive, que comprara os ingredientes na feira que havia na nossa rua e com a assessoria dos próprios feirantes que haviam ainda lhe dado dicas para permitir que a feijoada ficasse pronto a tempo e hora de minha chegada para o almoço.

Depois de parabenizar a autora da surpresa, peguei meu prato e fui me servir diretamente na fonte (panela).

No trajeto até o fogão algumas duvidas vieram povoar minha cabeça de marido apaixonado, entre elas: “Minha esposa não tinha domínio, ainda, das artes de culinária, como teria conseguido preparar a iguaria?”

Sem buscar resposta mais esclarecedora, preparei meu prato, sentei-me à mesa, tomei uma golada de caipirinha e emborquei a primeira garfada…

Meu Deus! Minhas feições, lógico, traiam qualquer desejo de proclamar outro elogio. A vontade que tive de devolver a garfada que continuava na minha boca sem, ao menos, conseguir engolir, queimava todo interior da boca até a laringe de tão salgada.

Percebi, com muita tristeza, a fisionomia de dona Cida ir se transformando, saindo da alegria para uma tristonha decepção em frações de segundo.

Engoli, com tremenda coragem, a garfada, sem muito mastigar, dei outra golada (grande) na caipirinha, e com todo afeto, tentei consolar a autora de tal disparate.

Entre as conversas que se seguiram, já que o almoço havia ficado definitivamente comprometido e se transformado em um prato de arroz, farofa e couve, descobri, afinal, onde havia ocorrido o maior erro: A “cozinheira” além de salgar as carnes ainda havia temperado o feijão com adição de mais uma pequena porção de sal.

Disse ainda, que tentara adicionar a menor porção possível de sal com medo de deixar o prato salgado demais…

Pilotos de fogão, no princípio de carreira são, realmente, perigos mortais.

A única vantagem que adveio depois dessa experiência é que a dona Cida se transformou numa excelente quituteira e me alimentou soberbamente durante os 32 anos de efetiva união.

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