Festa de São João

Levei o corte de chita verde à costureira, para ser feito o mais lindo vestido caipira, cheio de laços e fitas. Minha turminha havia arranjado um fundo de quintal no Cambuci emprestado para a festa: haveria fogueira, correio elegante, muitos quitutes tradicionais e quadrilha, que vínhamos ensaiando já por algumas semanas. Alguns rapazes de outros bairros viriam e entre eles o Mo, um russinho da Vila Prudente que todas as meninas achavam lindo. Ele tinha cabelos bem lisos, de um loiro dourado, um sorriso especial e havia conquistado meu coração sem nem mesmo saber.
Eu tinha dezesseis anos, nunca tinha namorado e secretamente esperava chamar a atenção do Mo durante a festa. Quem sabe dançaria a quadrilha com ele? Já podia nos imaginar de mãos dadas, ele me admirando no meu vestido novo.
Ainda me lembro de como amolei a minha mãe para comprar aquele tecido e um par de sapatos combinando! Mas valeu a pena, pois o vestido era uma beleza mesmo. No dia da festa, fiz duas tranças no meu cabelo longo, arranjei um chapeuzinho de palha com flores, e lá fui eu!
Chegamos cedo para arrumar tudo no terreno e quando a festa já estava em ordem apareceu uma lua cheia linda e o céu se tornou branco de estrelas. O pessoal veio chegando, alguns trouxeram violão e formaram rodinhas, cantando canções folclóricas e sertanejas. Passava-se quentão em canecas de lata, a fogueira foi acesa. Perfeição total.
Só faltava o Mo.
Enquanto eu corria de lá pra cá, levando bandejas de doces e servindo refrigerantes, meus olhos estavam no portão do quintal. Já estava ficando tarde e nada do Mo aparecer. Perguntei dele para minha amiga Cleuza e a resposta foi um sorriso enigmático. O que estaria acontecendo?
Quase na hora da quadrilha, notei que a Cleuza havia sumido. Já se formavam os pares, onde estaria o Mo? Ah, vocês adivinharam! A Cleuza e o Mo estavam juntos, agarradinhos, lá no fundo do quintal!
Vieram subindo a rampa, bem juntinhos, trocando beijos.
Não sei como dancei a quadrilha aquela noite. Nem me lembro com quem dancei. A festa estava acabada pra mim.
Depois da quadrilha, ainda havia o concurso de vestidos, mas eu já não tinha interesse. Meu lindo vestido caipira teria ganho o prêmio, mas não me importei. Meu coração estava partido.

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