Não é de se estranhar que, em todo lugar desta maravilhosa cidade, existam histórias e personagens, mas esta é absolutamente real, e dentro do contexto do meu velho e querido Braz, este personagem e suas peripécias passaram a fazer parte do arquivo de lembranças da esquina da Rua Caetano Pinto com Rua Campos Sales, na época do Bar do Elias. Sim, era lá que se reunia a "velha guarda do Braz", em um banco estrategicamente colocado (desculpe, "fixado") e agora inexistente, mas "perpetuado" em nossas mentes.
Ali sentavam o Sr. Damião Cocciolito, o Sr. Gildo, o Sr. Manzano, o Sr. Donato Montone, o Sr. João Mazzulo, o Bombieri, o Bertoli, o Sr. Pedrinho "Piola", o Lisieri, o Dudu… Bem, dezenas de pessoas que, como já me referi, faziam parte da "velha guarda"; comentavam e trocavam opiniões diversas sobre temas igualmente diversos e sempre à altura dos interesses e da "cultura" dos seus frequentadores, mas invariavelmente eram sobre família, amizades, pessoas, comidas e, como não poderia deixar de ser, futebol.
Logicamente, sempre que se percebia que a um dado momento criava-se um clima exageradamente explosivo (claro, dependendo do assunto em questão), parava-se automaticamente de comentá-lo e subitamente mudava-se da água para o vinho. Ou seja, va benne, mudavam de assunto, e algum participante mais, digamos, "da paz", procurava lembrar um caso verdadeiramente alegre, para assim, justificar a mudança de assunto.
Exatamente nesse momento lembrava-se, dentre outros, do Fazú, apelido do Sr. Luis Montone, que na verdade era um modo de falar em napolitano a palavra "fazule" (feijão), que, modéstia à parte, intitulava-se, como ele próprio dizia, um vendedor de oportunidades e um grande observador.
Esta história é sobre a sua qualidade de "grande observador". Estávamos mais ou menos no meio da década de sessenta, e como nosso personagem sempre vivia em crise financeira, desta vez estava encostado na porta do Bar do Valdomiro, esquina da Campos Sales com Rua Flora, logicamente pensando em como conseguiria desta vez sair de um verdadeiro "crash" financeiro, já que existiam (aliás, como sempre) muitos credores à sua procura.
Enquanto sua mente "fervilhava" à procura de uma solução, de repente (como se caísse do céu) um grande caminhão de entrega de bebidas parou na esquina, e começou a manobrar para estrategicamente estacionar e poder, assim, entregar as bebidas, já que havia também outro bar em frente no qual nosso personagem se encontrava.
Durante a manobra o motorista distraiu-se e bateu em um "aero-willis" estacionado por algum funcionário, talvez da diretoria (por causa do carro, um top de linha na época) da Metalma, Metalúrgica Matarazzo, que se localizava bem próximo do local. O motorista, imediatamente, desceu do caminhão e foi desesperado ver o dano que causou ao veículo, e, lamentando-se, virou exatamente, como que por milagre, "olhando" para o Fazú, e colocou as mãos na testa, assustado, não sabendo o que fazer.
De repente, o Fazú saiu de onde estava e, também assustado e desesperado, gritou ao motorista: “Como você pôde fazer isso? Meu carro! Novo! Inteirinho! Será que não se pode nem mais estacionar um carro para tomar um café? Isso não vai ficar assim! Eu vou ligar para a empresa que você trabalha e você vai ter de ser mandado embora para poder me indenizar, isso não se faz e blá, blá, blá”.
Daí não deu outra: o motorista, preocupado com seu emprego, negociou com o Fazú uma indenização que não o "machucaria", e entregou-lhe um determinado valor em dinheiro (claro que nunca soubemos o valor). Fazú saiu para procurar um guincho, mas não sem antes solicitar ao motorista que fosse rapidamente embora, senão ele mudaria de idéia.
Quando voltou ao local, ainda se mostrou solidário ao verdadeiro proprietário do veículo, e testemunhou que "não deu tempo de anotar a placa do caminhão, que após bater no carro fugiu sem que ninguém pudesse fazer nada".
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