Caixinhas de papelão. Pequenas ou médias, boas para guardar coisinhas. Das quais – caixinhas e coisas – a gente nem mais lembra. Basta deixar num canto. E até do próprio cantinho não lembrar.
Mero acaso. Reencontro uma caixa. Cujo conteúdo me é surpresa. Tempo de ex-moleque, pré-adolescente na Vila Mariana. Lá pelo começo de 60. Tempo distante em que, das emissoras paulistanas, duas eu gostava dos nomes: Piratininga e Panamericana. Nesta última, eu ouvia aos sábados e domingos jogos do Campeonato Paulista, Torneio Rio-São Paulo e Torneio Início. Além de folhear a saudosa A Gazeta Esportiva Ilustrada – meio em preto-e-branco, meio colorida. Eu, moleque, adorava ler A Gazeta, das tirinhas do Professor Nimbus, não?
Aberta a tampa, o que exibe a caixa? Cinco times de futebol. De botão. De plástico rígido, duro. Novinhos, em sua longevidade! Guardados desde aquele tempo. Quase raridade, descontando o exagero. Botões fortes, que aguentavam tranco. "Jogadores" que não se contundiam. Quando muito, rachavam. Os meus? Intactos, imaculados. Produzidos no Brás. Onde ainda é perto do Centro. Numa travessa da Gasômetro, bem antes de os bondes virarem na Vasco da Gama. Rua que, para eu lembrar, dá preguiça de olhar no guia. Fábrica de artefatos plásticos na qual eu comprava os joguinhos. Marca tradicional, embora eu não lembre. A caixinha na qual eles vinham, direto da fábrica, era inconfundível. Contemporâneos de mim hão de lembrar. Mesmo aqueles que fizeram poucos gols.
Pequenas lojas de armarinho e bazares, daqueles de portinha estreita e balcões envidraçados, de madeira, neles a gente encontrava facilmente tais jogos de botões. Domingos de Morais, um exemplo.
Para bem corresponder aos times tradicionais, do futebol de verdade, a fábrica fazia os botões em branco, preto, verde, vermelho, azul (Nacional, da Comendador Sousa) e amarelo (Jabaquara, de Santos, o Jabuca que houvera se chamado "Hespanha" antes da Guerra, a Segunda Guerra). Quem guardou um jogo desses, pode confirmar: no centro do disco (o botão), um escavado dentro do qual o distintivo do time. De papel, fidelíssimo ao originário, colorido. Um disquinho transparente que protegia o distintivo. Era ou não capricho?
Lembro mais, que até clubes pouco ou nada de nós conhecidos eram feitos. Exemplos? "Santo Amaro" e "América", ambos de Recife; "Cruzeiro" de Porto Alegre; "Galícia" da Bahia. Não era pois um esmero? Puro capricho.
Meus cinco times que hibernavam na caixa por uma eternidade, agora me vêm à tona. Vasco (preto), Grêmio (branco), Guarani (verde), Juventus (literalmente grená, tal qual a jaqueta) e C. A. Ypiranga (branco). Ypiranga, o Vovô da Colina, que saiu do futebol profissional quando eu tinha uns 10 anos. Tempo em que locutor era "espíquer". E árbitro – diziam os "espíqueres" – era "sua senhoria". As bolas, "de capotão", coisa assim. Bandeirinha? "Linesman". O homem da linha… Pacaembu da linda concha acústica e seu placar "manual"…
Tive times outros de materiais diferentes, como os de tampa de relógio de pulso, lembram alguns? O futebol de botão me deu muita alegria, mas não virou paixão. Nem o futebol de verdade, já que aquele outro é o de "faz-de-conta", não? Pois reencontrar os cinco times, fugazmente me lembra coisas outras da mesma época, que nós, moleques paulistanos, exercitávamos. Futebol de rua, de bola-de-meia até, carrinhos de rolimã e jogo de taco. Quem desfrutou deve ter saudade.
Retornem pois, times românticos – de um "futebol" sem brigas -, ao abrigo da saudade, à caixa. Para eu, um dia, tornar a achá-los, voluntariamente ao acaso. A simples presença de vós, timinhos inofensivos, trará a mim a mesma alegria dos gols daqueles jogos emocionantes. Que transcorriam, para mim, com a grandeza de uma epopéia. No grande "campo" que desenhei no assoalho de minha casa, na ainda então até bucólica Vila Mariana. Ó caixinha, protege esse mundinho de "faz-de-conta"! E fecham-se as cortinas…
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