Lembro bem que no começo dos anos 50, não lembro bem o ano, mas foi logo que comecei a trabalhar como taxista e isso foi em 1953. Na Rua Florêncio de Abreu no número 28 existia um salão de baile que era frequentado por gente bem humilde, eram trabalhadores que, depois de uma semana de muita luta, aproveitavam o fim de semana para se esbaldar dançando nas noites de sábado e nas tardes de domingo, que iam até a noite, porque na segunda-feira eles tinham que voltar a realidade das suas vidas que era o batente.
Era um salão mais ou menos como aquele que existia também no Braz, na esquina da Professor Batista de Andrade com a Avenida Rangel Pestana, e que naquela época chamávamos de Gafieira. A maioria de seus frequentadores era jovens negros. O salão ficava no número 28 daquela rua e assim era chamado de "Gafieira 28". O prédio era um velho sobrado que dava fundos para a Avenida Prestes Maia e bem ao lado do Viaduto Santa Ifigênia e também do Mosteiro São Bento. Em todos os finais de semana aquele salão sempre ultrapassava os limites da lotação permitida. Tinha somente uma entrada que era uma velha e estreita escada de madeira que mal acomodava duas pessoas lado a lado na subida ou na decida. Os bailes do sábado varavam a noite, que tomavam todas, pois havia um pequeno bar que os abastecia de muita cerveja e talvez alguma cachaça nas noites frias.
Lembro que estava eu com meus amigos no centro da cidade quando ouvimos as sirenes dos bombeiros saindo da Praça Clovis Bevilaqua em direção da Rua Boa Vista. Mais tarde soubemos que havia tido um incêndio trágico no 28 e que havia muitos mortos . Conseguimos chegar até o Largo de São Bento, mas não pudemos chegar até o salão, pois a comoção era muito grande e a polícia impedia o acesso. Desde o viaduto Santa Ifigênia víamos a parte de trás do prédio sendo devorado pelas chamas. Naquela época essa tragédia foi horrorosa, não lembro quantas pessoas morreram, mas nada se comparando com essa tragédia que aconteceu em Santa Maria no Sul do Brasil. No que sim elas se comparam era na irresponsabilidade de uma série de fatores que contribuíram grandemente para que tantos jovens tivessem suas vidas ceifadas tão tragicamente.
Dando alguns detalhes do salão 28, era um ambiente sem o mínimo de condições de segurança e que não poderia ter conseguido um alvará de funcionamento nem para uma reunião de amigos, quanto mais para bailes com venda de bebidas alcoólicas. Não lembro como foi que começou o fogo, mas lembro que alguém gritou fogo e ai houve a correria escada abaixo e a maioria morreu amontoada tentando sair. Houve também os que morreram asfixiados e queimados. Lembro dos comentários nos jornais do dia seguinte que os bombeiros salvaram muita gente jogando cordas escada acima e puxando quem conseguia agarrá-las. Lembro também da comoção que nossa cidade viveu após essa tragédia, com as mesmas promessas de sempre e que eu escuto agora, que a fiscalização será rigorosa, que o alvará só será concedido depois que preencher todos os requisitos e assim por diante.
Mas tenho certeza que dificilmente os verdadeiros responsáveis serão punidos, como sempre acontece. Hoje vi pela televisão, numa entrevista de imprensa, o advogado de um dos proprietários defendendo seu cliente e até comentei com minha esposa, pois de acordo com ele tudo estava em ordem com as exigências requeridas à boate e como disse a ela é bem provável que alguns dos sobreviventes sejam processados por não terem morrido. Porque de acordo com ele as falhas foram do corpo de bombeiros, do ministério público, da prefeitura, dos músicos que soltaram os fogos que não estavam programados, etc. etc.
Já se passaram quase 60 anos da tragédia da Gafieira 28 e continuamos, cada vez mais, cometendo os mesmos enganos irresponsáveis de sempre. Vamos só dar um tempo, pois daqui a pouco todo mundo esquece da tragédia e tudo continuará como antes, somente enxergando os cifrões $ pela frente, infelizmente. Tenho pena, muita pena dessas famílias que tiveram essas perdas irreparáveis, que nenhuma solução que seja tomada daqui para frente os trará de volta. Que Deus os tenha com muita paz e muita luz.
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