Pharmacia. Pássavamos sob a placa com este dístico e adentrávamos um mundo estranho.
Meio lusco-fusco, o ambiente antigo e escuro contrastando com vidraças e espelhos brilhantes, ampolas e boiões enormes com líquidos coloridos. Nas prateleiras, potes de faiança, verdadeiras obras de arte, cuidadosamente manuscritos em pálidas letras góticas.
Os cheiros intrigantes, de éter, perfumes e ácidos. De repente, misturando uns pós num almofariz, surge a estranha figura, como um Dr.Caligari de dentro de seu fantástico gabinete.
O farmaceutico, possívelmente magro e espigado dentro de seu imaculado avental, com a calva reluzente encimando o rosto enrugado, com óculos de aro metálico, deixa seu mágico mundo de alquimia e retortas.
Figura respeitada e conhecida por todos, saúda nosso pai pelo nome. Quase como o médico da família, outra instituição então existente, conhece muitos dos problemas que afligem seus clientes. Quase adivinha o que é que vão lhe pedir.
Nos armários envidraçados, latas e caixas com nomes estranhos, pendendo para o grego e o francês. E as propagandas de antanho? Cartazes com o famoso pescador da Emulsão de Scott, curvado ao peso de seu enorme peixe. Num canto, um homem de compleição taurina engole, qual uma jiboia, um touro verdadeiro, do qual sobraram só a cabeça os chifres.
Biôtonico Fontoura, Pílulas de Vida do Dr. Ross, fazem bem ao fígado de todos nós.
Numa ilustração sequencial, um careca ganha gradativamente cabelos, graças a Petrolovo.
Ou seria o Tônico Iracema? Rim doente? Tome Urodonal e viva contente.
Ali havia a cura, muitas vezes milagrosa, para todos os males. Ás vezes, sobre o balcão, uma Venus de Milo, ou o busto de Hipócrates, pai da medicina. Nesse campo de estátuas, a mais famosa era a da Botica Ao Veado de Ouro, o próprio, reluzindo sobre a fachada da loja, na R. São Bento.
Creio que este pequeno mundo, para nós encantado começou a ter fim quando foi aberta a primeira "drugstore". Surgia a Drogadada, na Barão de Itapetininga, trazendo o conceito de supermercado para o mundo das farmácias, agora já sem o PH.
Moderna, vendia outras atrações além de remédios, chegando a ter uma lanchonete. Era também fascinante, antes que outras grandes corporações dominassem e padronizassem o setor.
Como o empório de esquina, as pequenas farmácias personalizadas quase desapareceram, engolidas por empresas poderosas e impessoais.
Tanta pasteurização e mesmice acabaram trazendo à moda as pequenas farmácias de manipulação. Ainda existe o sentimento de procurar por alguém, sábio e competente, que nos aconselhe, neste país tão carente de saúde. Como o velho e omnisciente farmaceutico de outrora. Enquanto houver um toque humano, haverá remédio para a situação. Literalmente.