Fantasma da Quarta Parada

Isto ocorreu pelos idos de 1949/50. Eu trabalhava na firma Biscoitos Raucci, na Rua Siqueira Bueno, em frente ao campo do Club Radium. Eu, nos meus 14 anos, namorava uma menina da fábrica. Ela morava em uma travessa da Rua Tobias Barreto, perto do Cemitério da Quarta Parada.

Um dia, eu e algumas colegas da fábrica estávamos na casa dela, e o pai dela nos contou o episódio do fantasma.

A Rua Tobias Barreto passa atrás do cemitério. Naquele tempo ela não tinha asfalto, quando chovia ficava intransitável, mas para quem morava na Mãe do Céu, que era do outro lado, imediações onde hoje é a Avenida Salim Farah Maluf, os pedestres usavam a Rua Tobias Barreto e parte da Rua Padre Adelino e, logicamente, passavam atrás do cemitério.

Iluminação na rua nem pensar. Do outro lado da rua era tudo mato e depois do mato passava a linha do trem, que, aliás, ainda passa.

Segundo o pai da garota nos contou, começou correr a notícia no bairro que quando escurecia apareciam fantasmas atrás do cemitério, na Rua Tobias Barreto, e ao que parecia tinham mais de três metros de altura. As pessoas que utilizavam aquela passagem contavam que tiveram de correr do fantasma por várias vezes. A situação foi se agravando, pois cada vez mais pessoas contavam a mesma história. A essa altura, ninguém mais passava ali quando escurecia.

Até que os moradores, já saturados com a situação, e não podendo mais passar ali, resolveram tomar uma atitude. Como alguns não acreditavam em fantasmas e achavam que aquilo era obra de algum engraçadinho, foram pro sacrifício. O pai de minha garota e mais alguns amigos, um deles armado de revólver, resolveram fazer uma tocaia. Esconderam-se em pontos estratégicos da rua. Um deles seria o chamariz, ou seja, um deles teria de encarar a escuridão e simular que estaria transitando normalmente.

Não demorou muito. O fantasma logo apareceu para assustá-lo. Aí todos saíram dos esconderijos e enfrentaram o fantasma. Aquele que estava com o revólver deu alguns tiros para o ar. Não deu outra: o engraçadinho, que usava um lençol branco e ficava montado naquelas tradicionais pernas de pau (que a gente brincava quando era jovem e os palhaços de circo também usavam), deu um pulo, largou o lençol, as pernas de pau, deixou tudo pra trás e desembestou a correr pela Rua Tobias Barreto abaixo, sumindo na escuridão.

Daquele dia em diante, nunca mais apareceram fantasmas atrás do cemitério. Pelo menos aquele, nunca mais…

Abraços a todos.

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