Recentemente eu tive uma experiência na ida para o trabalho, que com certeza vou guardar por muito tempo na lembrança. Era 7h 45 da manhã, quando o vagão do metrô em que eu estava parou entre as estações Brás e Pedro II e, depois de quase meia hora parado, as pessoas começaram a ser tomadas por um sentimento de desespero, misturado com a vontade de saber o que estava acontecendo, então começaram a abrir as portas do metrô e caminhar pela via lateral.<br><br>Eu também acabei saindo e caminhei em direção à estação Pedro II, lá saí e fui andando até a Praça da Sé onde iria pegar um ônibus. Nesse caminho fiquei pensando em uma frase que muitas vezes ouvimos e também repetimos, ou seja, "Bons tempos aqueles, que não voltam mais". Mas será que aqueles tempos eram melhores que hoje? Que eram bons não tenho dúvida, mas se eram melhores mesmo, isso já não sei.<br><br>Essa caminhada trouxe-me à memória o sistema de transporte da nossa cidade, quando ainda não tínhamos o metrô, mas também já não tínhamos mais o bonde. Nessa época os reis do transporte eram os ônibus com suas linhas que cruzavam a cidade de uma ponta à outra. Havia várias linhas, algumas das mais famosas que me lembro: a Penha/ Lapa, a São Judas/ Perdizes, a Fábrica/ Pompéia, entre tantas outras.<br><br>Uma dessas linhas, que comecei a usar muito cedo, foi a Fábrica/ Pompéia, que ia do Ipiranga até a Pompéia. Eu tomava o ônibus na Rua Turiassu, no bairro Perdizes, bem cedinho, para ir até escola onde estudava, a Escola Técnica Antarctica na Avenida do Estado, esquina com a Rua Dona Ana Néri. Era uma escola da Fundação Antonio e Helena Zerrenner, os antigos donos da cervejaria Antárctica que ficava ali, bem pertinho da escola.<br><br>Nessa escola fiz o antigo curso de admissão ao ginásio, que era o quinto ano do primário. Lembro que no primeiro dia de aula acabamos passando por uma revista típica de uma tropa militar, com direito a cantar o Hino Nacional, ao hasteamento da Bandeira e a revista, propriamente dita. Não tenho boas lembranças desse dia, pois apesar de ter cortado o cabelo no sábado e de o barbeiro ter passado a máquina, o diretor me mandou de volta para casa, pois eu estava com o cabelo comprido, ou seja, não estava cortado à americana, mas isso já é uma outra história.<br><br>Esse ano, era 1968 e eu tinha 12 anos de idade. Foi um ano difícil, estávamos em plena ditadura militar, o A.I. 5 acabara de ser assinado e, no mundo todo, a juventude brigava por uma causa que, creio eu, ainda não sabiam bem qual era, mas o que todos almejavam: a Liberdade. Liberdade de se expressar, de amar, de poder ir e vir, enfim, liberdade no sentido mais amplo da palavra.<br><br>Um determinado dia estava voltando da escola, o ônibus ia pela Avenida São João, quando de repente o trânsito parou e não andava mais. Ao longe ouvíamos um “burburinho” que não sabíamos bem o que era, mas as pessoas entreolhavam-se como que perguntando uma as outras o que seria aquilo. O “burburinho” foi aumentando até tornar-se o barulho de uma multidão que gritava palavras de ordem, levava faixas e caminhava no sentido contrário ao qual íamos, ou seja, vinha do bairro em direção ao centro da cidade.<br><br>Lembro que na esquina, que foi eternizada pela música do Caetano Veloso, da Avenida São João com a Ipiranga havia uma guarita, bem no centro do cruzamento, onde ficava um guarda que controlava o semáforo e o trânsito do local. Pobre guarda. . . Com certeza nada tinha a ver com a ditadura, mas naquele momento ele era um símbolo do estado autoritário, que se fazia presente através dele e foi retirado da sua guarita e apanhou, mas apanhou muito, daquela multidão de estudantes que protestava contra o regime militar. Não vou entrar aqui no mérito dessa questão, apenas quero demonstrar uma cena que há mais de 40 anos ainda guardo na memória.<br><br>Outra linha que também guardo bem na memória é a antiga São Judas/ Perdizes, hoje ainda existe e vai das Perdizes até o aeroporto de Congonhas. Lembro-me de quando essa linha passou a ir até o aeroporto, aguçou os sentidos de todos os meninos da rua, pois poderíamos ir até Congonhas para ver a subida e a descida dos aviões, seria um programa e tanto, mas éramos crianças, todas na faixa entre 10 e 14 anos, uma turma “mais ou menos” grande, heterogênea, mas com muita vontade de viver essa aventura. Não lembro bem como foi, mas o planejamento foi longo, a dificuldade grande, pois nossos pais não poderiam saber, mas em contrapartida a recompensa seria grande.<br><br>E assim, depois de muito planejamento e de mais de 2 horas, chacoalhando para lá e para cá e atravessando bairros como Perdizes, Santa Cecília, o Centro da cidade, a Consolação, Paulista, Vila Mariana, Jabaquara finalmente chegamos ao nosso objetivo o grande aeroporto de Congonhas, do outro lado da cidade, para ver os aviões.<br><br>Foi um sonho, mas que não durou muito tempo, pois tínhamos mais algumas horas de trânsito pela frente no caminho da volta para casa. E lá fomos nós, um pouco tristes com a rapidez com que o tempo passava, mas felizes de termos realizado esse sonho, um sonho infantil, singelo, mas que foi bom de realizar.<br><br>Bons tempos que realmente não voltam, mas que estão presentes nas nossas mentes como os que vivemos agora que com certeza daqui a 10, 20 ou 30 anos também estaremos chamando de bons tempos que não voltam mais, mas que também trarão muitas lembranças queridas aos nossos corações.<br><br><br>[email protected]