São João Clímaco – onde trabalho atualmente – é um bairro marginal. Marginal à cidade, quero dizer. Está situado numa espécie de triângulo, entre São Paulo, São Bernardo e São Caetano. Não sei se por esta característica triangular, que remete ao triângulo das Bermudas, coisas estranhas acontecem por lá.
No horizonte, há uma indefinível cortina acinzentada. É como se pairasse sobre São Paulo – além da poluição – uma transcendência bi ou tri-dimensional. Olhamos de longe e não temos certeza do que vemos; como manchas de óleo no asfalto quente.
E, nessa névoa que nos atrai e repugna, dessa névoa, às vezes surgem notícias como a do ornitólogo que redescobriu o bicudinho paulista. E aqui do São João, São João este que não é aquele cantado e festejado, nos embeleza o dia saber que naquelas lonjuras – embora tão perto – ainda canta e recanta um bicudinho, nas arvorezinhas baixinhas da várzea paulista. Nas margens do Tietê.
À nossa volta – na marginália, na área triangular – a Anchieta nos convida ao mar. A serra, ao desdobrar-se, nos oferece as águas/as árvores/os bichos, mas, extraterrestres que somos, preferimos ficar. Raízes profundas nos prendem e o riso franco se esconde no que não fomos, no que não somos, no que poderíamos ser e declinamos. A vida acontece aqui e não ali; talvez essa seja a causa da tristeza infinita dos homens.