Evolução (Poesia sobre Higienópolis)

Moro em Higienópolis há 25 anos e a poesia que envio fiz quando caminhava para o meu trabalho, da Rua Dona Antonia de Queiróz para a Av.Angélica.

EVOLUÇÃO

Ainda encontro perdida
entre os suntuosos edifícios de Higienópolis,
remanescentes senhorinhas do café…

Cabelos azuis,
xale nos ombros
e o camafeu
na gargantilha.

Caminham sem pressa,
cabisbaixas,
s o l i t á r i a s.

As mais sofisticadas
carregam seus cães nas coleiras,
últimos companheiros…
Lembranças dos quintais enormes
e do latido forte nas noites de lua.

Conservam em seus sobrados sublocados
um mísero pé de café;
e logo acima, na janela colonial,
lê-se nitidamente: “ Eletricista/ Encanador”.

O que fôra o castelo
do Barão do café
é hoje um amontoado de contradições
solidão dos que nada tem.

Elas passam por entre as árvores
(testemunhas vivas de uma época)
e param,
e só quando param é que direcionam
o olhar mais além.

– O que elas pensam?
– O que pensam delas os que passam assoberbados como eu,
cansados da vida?

– O que pensamos nós,
– seres tão indiferentes,
daquela senhorinha que ali caminha
tão s o l i t á r i a ,
deixando nas calçadas a sombra do passado?

Aquelas velhas árvores
que envergam no tempo, seu tempo,
outrora foram esconderijos
de suas brincadeiras de criança
e hoje lhes dão sombra;

E hoje incomodam muita gente,
– esbarram nos fios elétricos
– interferem nos cabos de ligações telefônicas,
– sujam os jardins tão bem cuidados
– dos edifícios luxuosos.

Meu olhar se vai…
E uma delas caminha à minha frente.
e aquela senhorinha parece cada vez mais
ter saído de um álbum antigo
(daquele que tinha minha avó).

Disfarço, paro,
consulto o relógio,
leio as anotações da agenda e
ganho tempo para continuar…

– Será que ela sabe
o quanto nos custa o café?
– Ou será que para ela
o tempo não passou?

– É parece não ter passado!

Continua preocupada
como se ali adiante
na Piauí com a Angélica
fosse encontrar a carruagem
de seu noivo que a levaria
ao passeio matutino
nos jardins dos Campos Elíseos.

O tempo voa,
tenho que correr,
não tenho jardins
nem pé de café,
tão pouco os cabelos azuis!

O que tenho com certeza
é uma vontade enorme de permanecer,
saber quem é figura tão meiga.

Ouço o relógio do Cemitério da Consolação
soar às nove horas
e sinto o cheiro forte do café
vindo da “Charmosa” padaria de Higienópolis.

Caminho rápido,
passo por ela e percebo seu olhar
agora mais próximo e real.
E a ouço pedir ao balconista:
– Um pacote de chá, por favor.

E assim eu passo
e fica o eco de sua voz em meus ouvidos.
– Seria realmente chá
que ouvi a senhorinha do café pedir?

Apresso o passo, tenho que esquecer!
E sou subitamente abalada pelo ruído forte
dos carros que correm velozes na Avenida Angélica.

– Onde estão as carruagens?
– E os casarões?
– E o café vermelho entre as folhas verdes,
onde foi que vi?

Localizo-me:

– Não há carruagens
– nem casarões.
Há sim quem não tome café
por não ter com que comprar.

Essa é a Higienópolis de hoje,
diferente daquela descrita
no “Éramos seis” .

Hoje somos um amontoado
de nós mesmos!

Cleidiner Ventura/São Paulo, 1986
Rua Dona Antonia de Queiroz
e-mail do autor: [email protected]